Dama do teatro, de grande fama cinematográfica após o estrondo musical e comercial ($$) que foi “Mamma Mia“, a britânica Phyllida Lloyd tem dedicado a sua carreira no grande ecrã a seguir mulheres entregues a circunstâncias complexas que têm de superar obstáculos para a sua sobrevivência num mundo profundamente patriarcal.
Se “A Dama de Ferro”, sobre Margaret Thatcher, onde reencontrou Meryl Streep no elenco, revelou-se um sucesso da temporada de prémios em 2011, e manteve esse olhar no feminino, este seu novo “Herself” segue a mesma rota, mas agora com uma dose titânica de açúcar para amenizar o drama de muitas mulheres em ambientes de grande violência doméstica. E o filme começa mesmo aí, quando Molly (Molly McCann) é violentamente espancada pelo companheiro e salva “de algo bem pior” pela sua filha, que conhecendo a palavra-passe para sarilhos domésticos contacta imediatamente a polícia.
Entregue a uma nova vida, com duas filhas à sua alçada, um emprego que não permite luxos, e com desejos de recomeçar tudo, Molly avança – com a ajuda da comunidade e de uma amiga/patroa de longa data – na construção de uma habitação, seguindo as ideias de um arquiteto que colocou online a receita “low cost” para fazer uma casa com poucos recursos. É aqui que o filme, ao tentar servir como objeto de autoajuda e emancipação, encalha no mais óbvio dos crowd-pleasers para as massas, construindo e desconstruindo tudo para servir de modelo de resolução para outras mulheres na mesma posição.
A militância de Lloyd pela causa – das mulheres abandonarem os maridos violentos e tornarem-se independentes – é óbvia e louvável, não fossem as sucessivas situações melodramáticas apresentadas apenas lenha para queimar num incêndio que sabemos que vai ser resolvido num final que à força se quer perfeito e inspirador.
Salvam-se ainda assim as sequências em tribunal, onde a justiça é confrontada com as suas fragilidades e tendência de proteger quem não deve. Mas até nisto o filme tende a cair no “acabar demasiado bem”, tornando toda esta ode ao empoderamento pessoal num exercício em que todos os astros se alinham para ajudar. Talvez fosse mais importante frisar que independentemente da quantidade de ajuda externa (a comunidade ganha aqui um papel fulcral), mais vale só que mal acompanhada, em qualquer circunstância.


















