A metalinguística traz sempre um risco: nas histórias que refletem sobre a arte da narrativa e da sua relação com o público há sempre a hipótese do artificialismo e da falta de espontaneidade minarem a sua relação com o próprio. Por outras palavras, se o mecanismo das fantasias é ocultar o irrealismo e atirar o recetor para um novo mundo, o desafio destas propostas é manter a atenção mesmo revelando frequentemente os seus artifícios.
No caso em questão, o realizador espanhol Aritz Moreno, que estreia numa longa-metragem que lhe rendeu uma nomeação aos Goya como Melhor Novo Realizador, coloca o artista em paralelo com o esquizofrénico, no sentido em que oculta a sua própria personalidade através da criação de várias outras. Assim, Helga Pato (Pilar Castro, de “Julieta”, de Pedro Almodóvar) recebe com atenção a história que lhe é contada ao acaso por um psiquiatra (Ernesto Alterio) num comboio; dentro desta narrativa há outra, onde acompanha-se a trajetória de um falso militar (o inevitável Luís Tosar) mais tarde convertido em coletor de lixo.
Moreno vai tratando com um humor negro, por vezes macabro, histórias que envolvem toneladas de sacos de lixo, coprofilia (!) e diversos formas de abuso de fundo sexual – embora aqui com algum um esforço de enfatizar o drama e reduzir a comicidade numa sequência de tráfico sexual de crianças e onde protetora delas (Stéphanie Magnin Vella) se prostitui para levantar fundos para um hospital infantil.
Neste escavocar do lixo (mental) o humor negro de Moreno, no entanto, presta-se melhor à história de uma mulher com um namorado que, através da coação emocional e de uma relação de dependência, vai transformando-a, literalmente, numa cadela – a comer ração, dormir numa “casinha” no quintal e, numa cena particularmente ousada, ficando em posição de ter relações sexuais com um cão!
Nessa espécie de antologia burlesca, certamente mais bizarra que ilustres ancestrais (em especial a primeira da Amicus, “Dr. Terrors House of Horror”, onde Peter Cushing, num comboio, lia num baralho de tarot a sorte de outros quatro passageiros cujas histórias se desenrolavam em capítulos separados), o cineasta sugere que cabe ao espectador a decisão final sobre o que cada um faz com aquilo que recebe. Quando algumas coisas correm mal para Helga, um psiquiatra explica-lhe que “contar histórias num comboio não tem nada de mau, as (más) consequências são de responsabilidade de quem as ouve”.



















