Harry Bradbeer, o realizador deste “Enola Holmes”, bem tenta se apoiar em mais uma estrutura narrativa que frequentemente comunica com o público quebrando a quarta parede (como Fleabag, que também realizou), mas a energia do seu produto derivado do universo Sherlock Holmes esgota-se rapidamente e no final o que sobrevive é o Star Power de Millie Bobby Brown, a estrela de “Stranger Things”, e um Henry Cavill a desempenhar um Sherlock Holmes mais simpático e aberto do que é habitual.
Curiosamente, é essa maior humanidade de Holmes que pode provocar dissabores à Netflix já que legalmente a obra de Conan Doyle divide-se em dois momentos: a publicada antes da 1ª Guerra Mundial (já em domínio público), na qual Holmes é um detetive mais fechado, frio e calculista; e a segunda fase, ainda sob direitos de autor do espólio de Conan Doyle, que apresenta um Sherlock mais “humano”, tal como aparece nesta longa-metragem. Não espanta por isso que o filme tenha sido levado a tribunal por alegada violação dos direitos de autor, mesmo que a personagem de Enola Holmes derive dos livros juvenis que Nancy Springer escreveu no início do século XXI, e que começaram como mera “fanfiction”.
Mas à parte de todas estas embrulhadas legais, “Enola Holmes” assume-se objetivamente como uma aventura ligeira, juvenil e feminista sobre a forma como a irmã do famoso detetive vai partir à procura da mãe desaparecida (Helena Boham Carter), tendo muitas vezes como entraves os irmãos mais velhos, Sherlock Holmes e Mycroft Holmes (Sam Claflin), sendo este último particularmente conservador e pregador “dos bons costumes”, um indicativo da sociedade que se vivia na época.
Ora sozinha (como o seu nome ao contrário diz … alone), ora ocasionalmente acompanhada na sua busca incessante pela mãe, por entre planos curtos e cortes rápidos algures entre “Indiana Jones – Crónicas da Juventude” e o “Sherlock Holmes” de Guy Ritchie, Enola Holmes parte numa jornada de amadurecimento e crescimento pessoal, onde não faltam comentários sociais com algum interesse, mas também um romance que nunca convence e um final aberto pronto para as sequelas que se adivinham.



















