Estávamos em 1984 quando Pedro Olea levava ao Festival de Berlim o filme de época “Akelarre”, trabalho financiado pelo governo basco que enfatizava o confronto entre a cultura católica castelhana e a pagã basca, tendo como centro uma cidade de Navarra mergulhada num regime feudalista cruel. Um novo “Akelarre”, que significa em euskera (língua basca) o Sábado das Bruxas, ou Sabbat, a reunião daqueles que praticam bruxaria, chega agora aos cinemas quase 40 anos depois em plena era pós-Me Too, e mesmo não sendo de todo um remake, toca em tópicos semelhantes ao filme dos anos 80, ou seja, explora o confronto da igreja católica com as práticas pagãs, com a mulher como um alvo recorrente e fácil.
O centro aqui é um grupo de jovens que – aproveitando o facto dos homens da sua aldeia estarem nas atividades piscatorias sazonais – são acusadas de bruxaria por parte da Santa Inquisição, liderada nestas paragens por Rostegui (o sempre competente Álex Brendemühl), que carrega em si toda a atmosfera de carrasco a soldo da Igreja Católica.
Assinado pelo argentino Pablo Aguero, que muito prometeu quando lançou “Salamandra” em 2008 e regressa agora após o bem sucedido no circuito de festivais “Eva no Duerme” (2015), este novo “Akelarre” – cofinaciado pela Netflix – tem todas as marcas associadas ao cinema adolescente e jovem adulto de baixo orçamento, ou seja, centra-se no grupo de personagens injustiçadas e concentra-se nelas, atraindo através dos diálogos ligeiros, canções enigmáticos e ritualismos estilizados o espectador para uma história de repressão, por um lado de uma organização de forte cariz patriarcal (a igreja católica) sobre as mulheres e o seu desejo sexual; por outro, a demonização dos Bascos por Castela, equiparando a sua língua à das bestas demoníacas, e as suas tradições e cultura às de uma sociedade não civilizada.
É na confrontação direta entre Rostegui e a suposta líder das bruxas, a novata Amaia Aberastrui (segura), que surgem os melhores momentos desta fita, em particular aqueles em que o inquisidor se demonstra preso entre a excitação e a demonização da jovem, frequentemente apresentada entre a ingenuidade e a ardil manipuladora. Porém, esses momentos com sal e pimenta são raros num filme que normalmente não escapa aos truques banais do cinema com marcas algorítmicas “da estação”, ou seja, construções e idealizações mais para agradar o público (o discurso feminista atual aplicado àquela era) do que em ser uma representação realista dos tempos que retrata.
Nisto, e apesar de um trabalho estético aprimorado e as notórias limitações orçamentais, “Akelarre” vale essencialmente pelo repescar da paranóia religiosa da Inquisição Espanhola no País Basco e de repressão sistémica às mulheres.
(crítica originalmente escrita em setembro de 2020, durante o Festival de San Sebastián)


















