O esqueleto narrativo de “Hunted” é o mesmo de “I Spit on Your Grave”, o clássico “trash” que movimentou o final da década de 1970 e que, à atabalhoada e voyeurística maneira daqueles tempos, não deixava de oferecer uma catarse feminina. No século XXI, sai a nudez e entra o simbólico quispo vermelho de Eve (interpretada pela atriz belga Lucie Debay), uma mulher em trabalho empresarial no exterior (uma subtil crítica ao capitalismo) que, cansada do seu dia e ignorando os telefonemas do namorado, vai parar a um bar. Antes disto, uma historieta para crianças à volta da fogueira explicou, através do recurso a uma animação que remete a “Persepolis” (obra correalizada pelo autor de “Hunted”, Vincent Paronnaud), que os lobos gigantes selvagens desapareceram no tempo, mas os homens (sexo masculino) continuam vivos.

Aquilo a que se propõe (a caçada do título é bastante mais “gore” e menos alegórica do que um conto de fadas), Vincent Paronnaud faz com magníficos momentos de tensão, que garantem uma diversão violenta e momentos de loucura “over the top” (a cena no qual um “cadáver” “ressuscita” após um eletro-choque acidental e arranca uma flecha de dentro do ouvido!) – ainda que o tom solene e a forma séria como o cineasta encara a sua abordagem não deixe grandes travos para o humor que não involuntário.

Tal como nos filmes americanos essa encarnação de Towanda e o súbito grito de libertação feminina não inclui a sexualidade livre, uma vez que, como no mais corriqueiro dos “slashers”, a “lady” que procurar sexo casual invariavelmente encontrará um lobo mau. Mas a Capuchinho de Paronnaud está melhor protegida: misteriosas forças da floresta primitiva estão ao seu lado – ao mesmo tempo que este duelo de sobrevivência ganha um colorido mágico para sugerir, de forma indireta, a possibilidade de uma cosmogonia matriarcal e da mulher como a ligação às forças da terra pagã (os vilões da historieta inicial são Cruzados).

A evocação do imaginário de “I Spit on your Grave” presta-se ainda a outro tipo de leitura: o vilão (Arieh Worthalter, de “Girl”) gosta de filmar mulheres em sofrimento, sugerindo-se aqui uma crítica à própria fantasia que não só alimentava os filmes “rape-and-revenge,” como toda a indústria que, desde “Psico” (o primeiro “torture porn”?), veicula as “delícias” do uso do poder coercivo com um fundo sexual. Não é o intento de Paronnaud ir muito a fundo nas profundezas fundadoras destas fantasias, mas antes inseri-las num quadro mais convencional de retrato da opressão física do masculino sobre o feminino.

O filme descamba montanha abaixo no final, com o argumento (assinado pelo realizador e por Léa Pernollet) não conseguindo sugerir outra coisa para a equiparação de géneros que o mais banal corpo-a-corpo presente nos mais toscos filmes de ação “hollywoodesca”. Mas, antes disto, são múltiplos os caminhos para a casa da avozinha.

Pontuação Geral
Roni Nunes
hunted-a-vinganca-do-capuchinho-vermelhoMistura de conto de fadas com “jungle survival” tenso, violento e com alguns lampejos de originalidade, pecando pelo final demasiado banal.