Localizada junto à fronteira francesa com a Bélgica, Roubaix é uma das cidades com maior taxa de criminalidade do país. É também a terra natal do cineasta Arnaud Desplechin – celebrado por grandes obras como “Rois et Reine” (Reis e Rainha, 2004) e “Un Conte de Noël” (Um Conto de Natal, 2008) –, que retorna às suas origens com um olhar humano mas pessimista. Quem viu “Les Fantômes d’Ismaël” (Os Fantasmas de Ismael, 2017) ou “Trois Souvenirs de ma Jeunesse” (Três Recordações da minha Juventude, 2015) não reconhecerá aqui o charme ou a nostalgia que se encontrava nessas obras – antes dará de caras com uma história nua e crua sobre um homicídio cruel.
Só que o homicídio, de que são suspeitas duas mulheres alcoólicas (Léa Seydoux e Sara Forestier, ambas com uma fragilidade enganadora), não é de todo o mais importante neste filme.
Por um lado, Desplechin presta demasiada atenção aos procedimentos investigativos do crime, focando-se na interrogação (ora individual, ora conjunta) das suspeitas, que vão revendo os seus testemunhos até reencenarem por completo o assassinato. Toda a segunda metade da obra se alonga nestes detalhes, com um desejo cego de chegar a alguma espécie de “verdade” que reponha a ordem. Mas que ordem é possível num local onde todos os dias chegam queixas de roubos, fraudes, violência doméstica, violações e fogo-posto? Além disso, ao praticamente esquecer a vítima e até as motivações do crime, Desplechin não consegue fugir a uma certa insensibilidade e cinismo no tratamento deste assunto.
Por outro lado, a estrutura deambulatória da primeira parte de “Roubaix” pelos vários cantos e recantos da cidade prova ser uma abordagem bem mais provocadora e cativante do que aquela escolhida pelo realizador daí em diante. Com uma peculiar mistura de registos, desde o terror ao realismo social, passando por uma espécie de narração epistolar, são-nos dados a conhecer tanto habitantes de longa data como recém-chegados. É um estranho documento de caracterização demográfica que se forma, capaz de despertar o interesse do espetador e mantê-lo sob o seu feitiço (graças ainda ao trabalho da diretora de fotografia, Irina Lubtchansky, que filma a cidade quase como uma cena de guerra).
Contudo, e infelizmente, Desplechin parece menos interessado nesse documento e mais empenhado na criação de uma lenda, daquelas ao espírito de Jean-Pierre Melville, que figura a serenidade no meio da tempestade. É Daoud, o comissário da polícia local, que investiga o homicídio central com prudência, tranquilidade e, enfim, misericórdia, assumindo-se uma espécie de santo padroeiro da cidade, aquele que mantém um resquício de ordem perante o caos. A empatia e bondade (ou “luz”, como anuncia o título original, “Roubaix, une Lumière”) com que exerce o seu trabalho tornam-no uma figura quase mística entre os seus violentos e criminosos cocidadãos.
Não fica claro se o realizador apenas admira o seu caráter ou se se identifica com a superioridade de um homem que, ao contrário dos que o rodeiam, conseguiu superar os constrangimentos do seu meio. Mas Daoud só é quem é à custa da precariedade dos habitantes de Roubaix (quanto mais escuridão a envolver, mais a luz brilha), e ao voltar à sua terra para filmar esta obra, também Desplechin adota uma posição que pode ser interpretada como estranhamente autocongratulatória.



















