No final do séc.XIX, uma família branca em queda, tenta lidar com as transformações sociais causadas pela abolição da escravatura e a ainda recente independência, e a morte de uma escrava/criada que a acompanhou durante décadas. Longe da fazenda familiar e do pai que as sustenta, uma das filhas, freira e professora numa escola religiosa onde essas mudanças também se vão tornando evidentes, tenta ajudar a mãe envelhecida e a irmã perturbada, que vivem sozinhas em São Paulo.

É sobre esta premissa que “Todos os Mortos” explora temas que ainda hoje definem a sociedade brasileira. O fim do regime de exploração da escravatura, o pensamento e as crenças que persistem ou se acentuam no momento de crise, a pobreza extrema, e a perseguição aos diferentes cultos trazidos de África, todos impactam com a crença da família que, apesar de tudo, são superiores – física, cultural e moralmente – por causa da sua cor. O argumento consegue, sem tentar fazê-lo de forma explícita, expor muitas das bases do pensamento colonial que ainda hoje está vivo, a partir de situações em que a incompreensão do valor da vida e da validez do pensamento, emoções ou crenças do outro são mostradas pelas acções ou pela razão que as sustenta. Para isso, recorre a todo um arsenal que tornam difícil a sua caracterização imediata de “drama”, já que há cenas sobrenaturais, outras de farsa pura, e ainda outras de thriller.

Se o filme peca, fá-lo pela sua teatralidade, o ritmo lento e demasiado consciente da palavra proferida e o movimento tímido da câmara. Ainda assim, há momentos deslumbrantes, como a integração da narrativa com a paisagem urbana actual da São Paulo urbana que parece, inicialmente, discordante, mas ganha uma dimensão intencional e ideológica na cena final. A natureza quase-musical do filme aponta para a sua intenção historiográfica e etnológica de querer documentar, ainda que relegados para uma linha secundária do filme, os rituais africanos que ainda hoje, e apesar de todas as tentativas de os reprimir, sobrevivem.

Pontuação Geral
João Miranda
Rodrigo Fonseca
o-espectro-do-colonialismo-e-todos-os-mortosUm filme ambicioso que só tropeça na sua teatralidade, rasando o génio quando se levanta