Em “Yummy” há uma espécie de sósia do Brad Pitt (Benjamin Ramon) que afirma trabalhar numa clínica de cirurgias plásticas porque, segundo ele, depois de um procedimento as mulheres ficam mais carentes e desejáveis (o “yummy” do título). Quem vai dar a tal instituição (situada num ponto não identificado da Europa de Leste) é Alison (Maaike Neuville), muito preocupada em reduzir os seus fartos atributos mamários que a levam a sentir-se muito incomodada com a forma como a humanidade masculina olha para ela (a cena inicial). Talvez por isso ela tenha escolhido como namorado um “nerd” atabalhoado (Bart Hollanders), um tipo que desmaia ao ver sangue e por isso teve que desistir do curso de medicina. Aliás, figura mais “clichezenta” é impossível: nem lhe é dispensado o uso de óculos. A sogra (Annick Christiaens), que os acompanha, bem sabe disto e acha que a filha e os seus “atributos”, sejam quais forem, mereciam coisa melhor.
A partir daqui o empreendimento do belga Lars Damoiseaux revela-se um ato de coragem em percorrer um caminho milhares de vezes trilhados – por outras palavras, o filme de cerco com “zombies”, cientistas loucos, humor negro e muitos membros arrancados. Fica-se à espera de um algum tipo de redenção, de um “twist” particularmente inventivo, mas nada acontece para além dos baldes de sangue e das iguarias “splatter” comuns a estes registos. Em termos de enredo, onde acumulam-se pequenos delitos narrativos que comprometem a fruição da sua historieta, o argumento assinado pelo cineasta e por Eveline Hagenbeek é secundário e nem se dá ao trabalho de explicar direito o que se está a passar.
Dada a pobreza conceitual geral e o foco de Damoiseaux estar na ação torna-se um bocado injusto chamar David Cronenberg, autor de dois mais bem justificados filmes de “zombies” já feitos (“Shivers” (1975) “Rabid” (1977), para um debate. Mas é facto que em “Yummy” se propõe algumas questões que se cruzam aqui e ali com os clássicos do canadiano – entre os quais o suposto apetite sexual feminino após um procedimento cirúrgico e problemáticas gerais em torno da sexualidade.
Neste quesito, “Shivers” e “Rabid” continuam a ser filmes potencialmente transgressivos: o primeiro tratava da assepsia sexual da pequena-burguesia rendida a ser apenas elementos de uma sociedade de consumo, enquanto o segundo lidava com uma ousadia ainda hoje impressionante com a demonização da sexualidade feminina.
“Yummy” milita noutra frequência, mais condizente com certas demandas sociais contemporâneas e onde tudo remete a dessexualização: a redução das mamas, o assassinato de uma mulher de meia-idade antes desta ouvir “tu não devias querer parecer uma putinha adolescente”, a divisão dos homens entre tarados (a serem punidos, obviamente) ou impotentes e uma cena bizarramente ilustrativa – quando o pénis de um homem pronto para o ato sexual literalmente incendeia. Não que o cineasta faça alguma séria “profissão de fé” disto tudo: a forma como encerra o filme revela-se mais útil à uma piada apocalíptica do que para afirmações de qualquer ordem.



















