A terra dos sonhos do título poderia ser a bela Europa. As locações na Bélgica e no Luxemburgo emolduram a tempos um olhar mais contemplativo, frequentemente abstrato, potencializados pelas cores da fotografia, por alguns planos mais longos e pela forma como a música é usada. Mas, nesta obra do canadiano Bruce McDonald (do inventivo cerco “zombie” de “Pontypool”), sob a superfície rasteja um mundo já sem ética: num local designado como o Palácio, fora da jurisdição do sistema legal e onde “a polícia não vai”, reúne-se uma estranha fauna de milionários moralmente referidos como a “escumalha do universo”.

No meio de uma guerra surda e de um cenário sem heróis está o assassino a soldo de nome desconhecido (Stephen McHattie, também coprodutor) em crise de identidade. Para um homem habituado ao homicídio, no entanto, existem limites: e estes chegam quando descobre que seu chefe, Hercules (o músico Henry Rollins, em mais uma incursão cinematográfica) meteu-se num novo ramo de negócios: o tráfico de crianças para fins sexuais. A partir daí começa uma jornada de redenção que passa até pelo confronto com o seu duplo (o mesmo McHattie a interpretar um músico adicto – inspirado em Chet Baker).

Falando-se de sonhos, mais sinistros são dos tais habitantes do Palácio, como os da condessa (Juliette Lewis, que usa de malabarismos afetados para corresponder a descrição de “monstro” que lhe é atribuída) e o seu irmão, designado como o “vampiro” (Tómas Lemarquis, conhecido de “Noi, o Albino” e que andou por cá na coprodução portuguesa “Insensíveis”, em 2012). Se uma das facetas históricas do vampirisimo era a do aristocrata que suga os desfavorecidos (as meninas pobres), um dos destaques do filme é a figura verdadeiramente sinistra composta por Lemarquis, que numa espécie de versão cómica/desesperada por sangue de uma virgem mistura em si o aterrador, o asqueroso e o cómico que chega a remeter ao clássico “trash” de Paul Morrissey e o seu “Blood for a Vampire”.

Sem se levar totalmente a sério e dentro da tal linguagem alegórica de McDonald, onde o eixo mais trivial de uma corrida contra o tempo mistura-se com abstrações de cores e sons distribuídos aqui e ali, fica legitimada uma sequência surrealista, onde redenção e carnificina são entrelaçadas com sugestiva ironia: enquanto a câmara passeia por cadáveres ensanguentados, ouve-se os versos cantados no formato de “jazz” de um velho “hit” dos Eurythmics: “I Saved the world today  / Everybody’s happy now / The bad things gone away /And everybody’s happy now”...

Pontuação Geral
Roni Nunes
dreamland-vampiros-assassinos-e-aristocratas-repelentesEntre a seriedade, a diversão e o alegórico o realizador de “Pontypool”, Bruce MacDonald, propõe uma fábula cínica sobre uma Europa luminosamente decadente.