Se, depois de décadas de guerra fria e com a queda do muro de Berlim, alguns pensadores defenderam a ideia que o ambiente político mais propício para o Capitalismo era a Democracia, só foi nestes últimos anos, com o crescimento da China, que alguns retractaram essas ideias. Mas, na realidade, essas ideias eram falsas e facilmente negadas até nessa altura, olhando para o caso da América Latina e das suas ditaduras (ou para toda a herança colonial do malogrado Sul). A participação de várias empresas (e os benefícios que daí tiraram) na ditadura militar argentina foi documentada há poucos anos pelo Ministério de Justiça e dos Direitos Humanos desse país, resultando dessa investigação dois volumes que foram apenas disponibilizados online e nunca publicados. Foi com base nesses dois livros que Jonathan Perel filmou “Responsabilidad Empresarial”.
O formato escolhido não é o tradicional, com planos fixos sobre a entrada das várias empresas e a leitura de partes dos relatórios, focando-se principalmente no processo repressivo (onde a participação activa das empresas era explícita) e nos benefícios que daí retiraram, antecedidos de separadores onde surge apenas o logotipo da empresa focada. Ao final de 3 ou 4, começa a perceber-se um padrão: vários “desaparecidos” (ao final de cerca de 40 anos de pós-ditadura, este estado mostra uma realidade brutal), listas feitas pelas empresas para remover os elementos mais incómodos (a maioria ligada aos sindicatos), reduções brutais de custos, crescimentos de lucros e a passagem de dívidas externas para a dívida pública. Ao final de mais 2 ou 3 surgem, de repente, nomes conhecidos: Ford, Fiat, Mercedes. Empresas que tinham (e ainda têm) instalações nesse país e que participaram activamente na repressão, perseguição e tortura de várias pessoas. O incómodo causado por esses nomes conhecidos foi palpável na sessão.
O padrão que se retira dessas descrições revela um sistema que não foi decidido centralmente por uma qualquer junta militar, com alguns dos casos a começarem meses antes do golpe de estado. Esse padrão é o mesmo que leva várias empresas a despedirem empregados no final do ano, para reduzirem custos e apresentarem lucros maiores, numa tentativa de se valorizarem no mercado. Ao contrário do que o Fukuyama e outros anunciaram nos 90s, o Capitalismo funciona melhor num sistema autoritário e repressivo, com o problema que essa atitude extractivista e predatória acaba por esgotar o que precisa para sobreviver. Isso mostram-no as ditaduras Sul-americanas e mostra-o também a crise climática que estamos a sofrer e que, à conta da manipulação da produção científica, ainda não conseguimos enfrentar.
Com pouco mais de uma hora de filme, o formato escolhido consegue não se tornar demasiado repetitivo mas, infelizmente, no final o realizador escolheu mudá-lo e fazer uma listagem de pessoas mortas ou desaparecidas. Se antes as práticas descritas mostravam, na sua repetição, o carácter sistemático da repressão, a lista de nomes acaba por funcionar contra isso. Primeiro individualizando o que é sistémico, depois fornecendo uma lista interminável de palavras não-relacionadas que não ajuda a compreender ou a empatizar com as pessoas a quem pertenciam estes nomes. Os planos fixos à porta das empresas funcionam porque, com a perseguição descrita, tudo o que se vê neles parece ser sinal de algo que vai acontecer: um carro que parece vir directo a nós ou uma conversa tida numa cancela parecem preparações para uma repressão contra o acto de ler o que estas empresas fizeram e como beneficiaram no passado recente.
Para os que tiverem interesse em saber mais sobre o tema, estes são os dois volumes disponibilizados: I e II



















