A primeira longa metragem da realizadora Jeanette Nordahl é um thriller ambientado num drama familiar, numa história que tem como ponto de partida um acidente mortal que põe fim à vida da mãe de uma adolescente, que assim se vê subitamente desamparada e com a vida interrompida. Este é o lado mais interessante do filme: a maneira como a jovem atriz Sandra Kampp transforma a adolescente Ida numa imagem da solidão e do desconforto, numa performance ancorada na sua fisionomia andrógina, uma ambiguidade conscientemente explorada e trabalhada por Nordahl, e que também é uma forma de sublinhar esse fosso invisível que separa a jovem Ida do mundo que a rodeia, predominantemente masculino e violento, numa dinâmica que se estende praticamente ao longo de todo o filme.
Acolhida pela tia, num papel interpretado pela atriz Sidse Knudsen (que reconhecemos sobretudo pela sua participação na série televisiva “Borgen”, uma produção onde a realizadora também colaborou como assistente de produção), a matriarca de uma família com ligações ao submundo do crime, Ida é a presença de um desenquadramento mudo e silencioso. Arrastada pelos serviços sociais para um universo de crime e violência, o percurso de Ida é também a história de um “novo começo” que nunca chega verdadeiramente a resultar. Nordahl procura sobretudo olhar para a estrutura de uma família disfuncional “atropelada” pela realidade crua dessa violência mais “sanguínea” e “marginal”, mas é precisamente nessa aproximação aos laços de sangue que fazem das famílias autênticas fábricas de desconsolo que se sente a falta de um cunho mais pessoal.
Se por um lado nunca abandona por completo o campo do cinema, não deixa de ser verdade que “Wildland” cede com alguma facilidade a um retrato já batido daquilo que entendemos por submundo do crime. Dias passados num torpor narcótico a olhar para o ecrã de televisão como se hipnotizados pela violência dos videojogos, ou os crimes de faca e alguidar que vão pontuando o quotidiano, são no fundo imagens que dizem mais sobre a vitalidade do imaginário que Nordahl vai mobilizando ao longo do filme, do que propriamente um comentário substancial sobre a realidade material do mundo à nossa volta.



















