De olhos postos na relação que se estabelece com o mundo a partir da maternidade, a primeira longa metragem de Maura Delpero é um filme que procura colocar o amor no centro da vida.

Com uma atenção plácida, abre as portas para o interior de uma casa de abrigo na Argentina governada por freiras que se dedicam a educar mães solteiras para essa grande “vocação”. Não se trata de uma primeira obra fascinada com as possibilidades plásticas do cinema, mas isso não impede que se sinta o entusiasmo de quem conta histórias pela primeira vez.

Filme de contrastes, “Maternal” vive em primeiro lugar da pulsão de um sítio virado sobre si mesmo, fechado aos desígnios do mundo lá fora, da vida tal como ela é. E isso choca com a paisagem interior daquelas mulheres, todas elas muito jovens e com a idade à flor da pele, tudo pessoas de carne e osso para quem a dádiva da vida também pode, afinal, ter o peso de uma cruz. Belíssimo elenco este, no fundo a matéria prima de onde Delpero foi buscar os momentos mais significativos de uma primeira obra que também nos fala da amizade de duas amigas, com atitudes bastante diferentes no que toca à maternidade.

Também é um filme de um duro encontro, uma aproximação entre a atmosfera mais beata e “poucochinha” da casa de abrigo, onde os “ensinamentos” nunca deixam de vincar esse lado mais mefítico daquilo que deve ser uma família, e um desejo em ser mãe com a vontade do coração. Com uma narrativa contida, “Maternal” acompanha de perto a chegada de uma nova freira, pronta para dar o corpo à causa, e esse movimento de descoberta vai fazendo eco ao longo do enredo – se é verdade que quem governa a casa de abrigo tem sempre qualquer coisa para “aprender”, a procura de uma linguagem comum de parte a parte, capaz de dar um novo sentido às coisas acaba por ser um dos temas transversais.

Pontuação Geral
José Raposo
maternal-o-amor-no-centro-da-vidaFilme de contrastes, “Maternal” vive em primeiro lugar da pulsão de um sítio virado sobre si mesmo, fechado aos desígnios do mundo lá fora, da vida tal como ela é.