Anna é mãe de quatro e a sua filha mais velha, Mira, sonha ser diretora de fotografia. A família vive na região de Donetsk, que em 2014 se tornou palco do conflito russo-ucraniano que veio a desembocar na integração da Crimeia na Federação Russa. Enquanto o seu bairro é bombardeado e as casas dos vizinhos destruídas, Anna e os filhos filmam cenas estilizadas dos perigos que estão a viver; as suas recriações aproveitam os soldados locais, os tanques que avançam pelas ruas cobertas de neve, e a avó, que reconta terríveis histórias de guerra.
Entretanto, a realizadora Iryna Tsilyk segue as suas vidas quotidianas e captura o outro lado da vida durante a guerra: a rotina matinal da família, as provas que Mira deve fazer para entrar na Escola Superior de Cinema, a montagem da árvore de Natal. São dois projetos fílmicos que se fundem para dar conta desse paradoxo surreal da guerra, que é o correr da vida mundana lado a lado com a violência atroz. É a isso que alude o título do documentário que daqui resulta, verso que provém de um poema de Paul Éluard e que exprime como as contradições mais inesperadas e inacreditáveis coabitam surrealmente nas nossas vidas.
Através de uma montagem poderosíssima de imagens e sons, em que as bombas e o acordeão de um garoto se sintonizam, a realizadora consegue, num curto espaço de tempo, criar também ela um poema enigmático. O que fascina na sua abordagem é a fusão da vida, da arte e da política, que aqui são indistintas: a decisão de permanecerem numa zona de guerra é uma posição política, tal como o é registar o dia-a-dia desta população. Anna mantém-se na sua cidade e tenta preservar alguma estabilidade para a sua família, encorajando o projeto artístico da filha, e esse é o seu contributo para a reconstrução da normalidade por que anseia. O mesmo se aplica a Tsilyk, cujo documentário, ao baralhar os papéis de cineasta, espetador e personagem, prova o potencial do cinema como máquina de proximidade e empatia.
Com uma missão que relembra For Sama, o documentário que Waad Al-Kateab fez sob fogo na Síria para a sua filha recém-nascida, The Earth is Blue as an Orange também é, ele próprio, uma estratégia de sobrevivência. A sua história demonstra como uma câmara de filmar, seja nas mãos de Mira e da família, seja nas mãos de uma cineasta como Tsilyk, é uma arma de resistência humana. E o cinema, esse, é o lugar de eleição para dar visibilidade ao nonsense, ao absurdo, ao incompreensível da vida.



















