“Patrick“, a longa-metragem de Tim Mielants que a partir do misterioso desaparecimento de um martelo dá um passo na direção das coisas absurdas e sem sentido que tanto nos confundem e inquietam, é um filme sobre a vida em sociedade. Não nos fala do nosso tempo, mas convida-nos a olhar para o presente pelo seu lado mais ridículo, como se afinal reconhecer a inutilidade do mundo fosse o motivo de uma grande piada, uma gargalhada seca capaz de apaziguar o desgosto e a desilusão de um quotidiano em que as condições de possibilidade se encontram em suspenso – isto para não dizer esgotadas.
Com Kevin Janssens no papel homónimo, Patrick é o personagem sobre quem recai uma renovada oportunidade de pensar a vida com outra atitude, muito embora esse “empurrão” seja o resultado de circunstâncias menos felizes: primeiro, a morte do pai, de quem herda a responsabilidade de gerir o parque de campismo para nudistas que serve de pano de fundo à história; depois o desaparecimento de um dos martelos que guarda na oficina, uma espécie de leitmotif que vai conduzindo o filme por géneros como a comédia ou o thriller, um choque que nunca deixa de ter a sua graça, e que quando resulta nos devolve aquela imagem torta do absurdo do outro lado do espelho. Será tão verdadeiro quanto este real que trazemos debaixo da língua?
Trata-se de um whodunnit (quem foi o sacana que me roubou o martelo?) filmado a partir das raízes do cinema de Lanthimos (…e Ostlund e Dupieux, isto para não irmos muito mais longe), um cinema que sabe fazer eco de situações e poses de uma certa tendência do cinema contemporâneo que tem colocado sobre pressão as aspirações ao consenso de normalidade, essa “performance” que tem sido historicamente levada a cabo por atores de contornos incertos como a são a “classe média” ou a “burguesia”, e que ao longo deste século XXI tem caminhado a passos largos – e muito atordoados – para o fundo do poço chamado realidade.
Não é “Patrick“, o filme, que nos vai subitamente despertar desse entorpecimento que tritura a política, essa secura que remete a humanidade para uma experiência do quotidiano agrilhoada à banalidade. Mas pode muito bem ser o Patrick, a personagem, quem nos leva a dizer: o que poderei eu fazer com este martelo?
Exibições no FEST 2020
02 ago. 21:30 // Junta de Freguesia de Espinho
04 ago. 21:30 // Cinema Trindade
09 ago. 21:30 // Cinema Ideal



















