Figura de proa da nova vaga do cinema romeno, Radu Jude é um dos cineastas que mais tem interrogado a história do seu país. Tem-lo feito a partir de um cinema auto-reflexivo, como se a própria História fosse um meio por onde se movimenta o pulsar da memória coletiva, gesto que em “I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians” atinge um grau de saturação condizente com a promiscuidade entre o Mundo e a representação que fazemos dele.

Na verdade, do filme de Jude até podemos dizer que não faz outra coisa senão colocar o cinema num lugar de destaque nesse trágico desenrolar da História enquanto espetáculo mediático. Algures entre um filme-ensaio cheio de boas intenções pedagógicas, e uma parábola cínica sobre os processos de cristalização e dissolução dessa grande névoa que é a memória colectiva, “I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians” aborda um período negro da história da Roménia, o  Massacre de Odessa, que entre o outono de 1941 e o inverno de 1942 pôs fim à vida de muitos milhares de judeus. Logo a começar pelo título, que levanta uma frase proferida por Ion Antonescu, o ditador romeno que esteve à frente do país durante a Segunda-Guerra Mundial, uma figura com responsabilidades diretas nessa grande nódoa na história do século XX. O flime de Jude evoca esse período, e a leitura que temos vindo a fazer dele, através de uma reconstituição histórica que está a ser levada a cabo por uma jovem diretora de teatro, uma personagem que anseia por conseguir fazer um retrato de alguma coisa que se possa apelidar de “verdade histórica”.

É nesta reconstituição histórica do massacre, e em todo o processo de encenação e “ensaio”, que se encontram os motivos dramáticos de um filme denso e labiríntico em referências e alusões filosóficas. A abordagem de Jude convence sobretudo pelo à vontade com que desenvolve o seu pensamento cinematográfico, inserindo-o num horizonte vasto de preocupações que atribuem uma responsabilidade ética e política às possibilidades de representação do mundo, com o cinema e a fotografia a ocuparem um lugar central. Se tudo isto é absolutamente essencial, não deixa também de ser verdade que o aparato que Jude constrói com tanta eloquência só nos vem afinal dizer aquilo que já todos sabemos: como a ilusão da justiça se tornou impossível, a verdade não serve para nada.  Ou não?

Pontuação Geral
José Raposo
i-do-not-care-if-we-go-down-in-history-as-barbarians-nos-os-barbarosO aparato que Jude constrói com tanta eloquência só nos vem afinal dizer aquilo que já todos sabemos: como a ilusão da justiça se tornou impossível, a verdade não serve para nada.