Aprecie-se ou não a peculiaridade de David Thewlis, cuja versão mais apurada se vê no magistral “Nu” (Naked, 1993) de Mike Leigh, o novo filme de Atom Egoyan perderia o pouco vigor que lhe resta se não contasse com o ator inglês no papel principal. A sua presença desconfortante, intimidante e sinistra complementa perfeitamente a personagem de Jim, o ex-proprietário de um restaurante que, após o fracasso do seu negócio, passa a ter uma profissão que lhe permite destruir negócios alheios: é inspetor da autoridade de segurança alimentar (por outras palavras, persona non grata).
Este poder e a reputação que dele advém encantam Jim, levando-o a utilizá-los desonestamente para ganho próprio quando vê a sua filha, Veronica, uma professora de música, encarcerada. É não só o bom nome da família que fica em causa – a honra titular –, como a relação paternal que entra em crise à medida que Jim descobre os eventos da infância de Veronica que a assoberbam de culpa. Entre os traumas, as doenças e os valores opressivos de respeitabilidade que sufocam este pai e esta filha, começa a verter pelas rachas um veneno animalesco que ameaça destruir as suas vidas.
As tendências vingativas e impulsivas de Jim, Veronica e do séquito de personagens interesseiras e manipuladoras que os acompanham pintam um retrato pessimista da sociedade. O foco narrativo sobre comida, higiene e animais reforça essa sensação de animalidade e carnalidade que tanto interessa Egoyan. Nesse sentido também é de notar a omnipresença da sexualidade (sexo como moeda de troca, traição, casos extramaritais, sexo com menores, etc.) que, contudo, jamais é vista explicitamente. É pelos meandros destes pesos psicológicos e sociais que o realizador joga com a moralidade e as debilidades emocionais das suas personagens.
Porém, a fábula moralista que compõe perde grande parte do sentido de antecipação e suspense devido ao mecanismo de estruturação do enredo. Tal como tem sido o estilo de montagem de eleição de Egoyan em várias das suas obras, também neste filme caímos numa espiral de flashbacks dentro de flashbacks que nos remetem pelo menos para cinco momentos diferentes das vidas de Jim e Veronica. Esta escolha não confunde o espetador, mas, embora contribua para a imprevisibilidade dos passos diegéticos, destrói qualquer possibilidade de catarse ao revelar o final da história desde o início. A dosagem de informação nesta estrutura não-linear não tem, portanto, uma conclusão satisfatória, não obstante o facto de nos fazer duvidar das personagens e das suas intenções, e de replicar a sua própria desorganização psíquica.
Aliada a coincidências convenientes que denunciam a artificialidade da intriga (por exemplo, a ligação de um dos alunos de Veronica ao mundo da restauração), esta ausência de criatividade demonstra como o guião segue uma fórmula já algo instituída sobre a análise (pseudo-)psicanalítica do trauma. Se fosse restituída a linearidade a esta história, “Convidado de Honra” não passaria de uma obra medíocre – e mesmo sem ela o filme não consegue dissimular a sua própria falta de ideias (o núcleo duro à volta do cineasta mantém-se praticamente o mesmo de toda a sua carreira: o compositor Mychael Danna, Paul Sarossy atrás da câmara e Susan Shipton na montagem). Passado um punhado de anos desde a sua última obra, Egoyan retorna ao grande ecrã com alguns trunfos na manga, mas principalmente sem muito de novo a dizer.



















