O filme “Adú“, dirigido por Salvador Calvo, traz três histórias que parecem completamente dissociadas, mas que se juntam num enredo que debate a questão da imigração e dos refugiados na Europa. Ao longo do filme acompanhamos o julgamento de um grupo de polícias acusados da morte de um refugiado na fronteira de Espanha com Marrocos, um ativista ambiental empenhado na luta contra caçadores furtivos de elefantes em África e um menino chamado Adú que, com a sua irmã Alika, tenta chegar à Europa, após a morte da sua mãe.
Num complexo contraste entre realidades, deparamo-nos com fronteiras físicas, mas também sociais e culturais que parecem intransponíveis. Nesta história de resiliência, perda e conflito, assistimos a muito mais do que apenas três histórias que se cruzam de alguma forma.
Através de uma obra de ficção, vemos aquela que é uma realidade bastante verdadeira; desde o retrato da interação entre as comunidades locais do Senegal, Camarões e Melilla e as autoridades, ao evidente contraste de histórias de vida, verificáveis até num simples exemplo muito bem conseguido da forma discrepante como Adú, em comparação com Sandra e Gonzalo, conseguiu embarcar num avião.
Com o peso tão dramático e emocional da narrativa de Adú, as outras duas histórias, do julgamento do grupo de polícias e da relação entre pai e filha (Sandra e Gonzalo), parecem ser colocadas de parte ou até desvalorizadas pelo espectador, que ao confrontar-se com uma narrativa principal bastante complexa, acaba por se alienar das outras duas e quando estas aparecem novamente, o interesse é cada vez menor, parecendo quase insignificantes ou forçosamente encaixadas no desenrolar do filme, o que acaba por estagnar o ritmo dramático que acompanhamos na vida de Adú.
Contudo, o tema de cada uma destas histórias secundárias é relevante, seja o ativismo ambiental, seja as questões de jurisdição, injustiça e abuso de força polical sobre os imigrantes. Simplesmente, os enredos de Gonzalo, Sandra e Mateo parecem ser descartáveis, não acrescentando nada à história central. A intriga do grupo de polícias do controlo de fronteiras é muito rasa e pouco trabalhada. Não se sabe como aconteceram as investigações, não existem explicações, apenas poucas palavras e um julgamento final que nos deixa a questionar se de facto se fez justiça.

Como ponto positivo, denota-se a fotografia bem enquadrada, em cenários deslumbrantes e reais, que vão desde a selva densa, escura e natural ao deserto onde a magnitude parece fazer ressoar a dúvida, a solidão e o medo dos imigrantes que num pequeno camião o atravessam. Para além disto, são várias as pequenas referências visuais que vemos reforçar a inquietante história de Adú e que nos narram também a realidade do locais pelos quais passa, desde o facto do menino ter escrito diretamente nas costas o número 7, com o nome ‘Ronaldo’, quando se encontra a brincar com as restantes crianças, o cartaz da Coca-Cola no centro de uma cena em que Adú conversa com Massar, um adolescente com uma história também muito difícil em prole da própria sobrevivência, ou ainda o momento em vemos Adú e Massar saltar um muro da cidade onde se pode ler ‘Liberté pour Casamance’.
Num filme dramático que toca na sensibilidade emotiva dos espectadores, seja através da própria narrativa, seja dos movimentos da câmera e da banda sonora, é de destacar a representação de Moustapha Oumarou (Adú).
Na sua personagem vemos a inocência própria de uma criança, mas ao mesmo tempo também vemos uma maturidade e um crescimento a que as adversidades da vida o obrigaram, tanto que quando nos deparamos com essa inocência de Adú, no seu questionamento sobre certas palavras ou situações da vida adulta que ainda desconhece, ficamos surpreendidos, porque com a postura da personagem perante as situações que lhe vão acontecendo, acabamos por nos esquecer que ele é apenas um menino de 6 anos.
No retrato da sua vida ao longo do filme, vemos um transparecer muito claro das emoções que sente, a tristeza, o medo, a incerteza e as pontuações de felicidade que nos mostram o quanto este conceito pode ser subjetivo, momentâneo e fugaz.
No fundo, a sensação que o filme nos traz é que mesmo que se tentem atravessar barreiras entre nações, as fronteiras entre mentalidades ainda estão longe de ser quebradas. As dificuldades persistem para quem procura uma vida melhor, longe do contexto em que não escolheu viver. A crise humanitária que atravessamos e que o filme retrata, mostra-nos a forma como Adú, tal como muitas outras crianças, se limita a sobreviver e não a viver realmente. Este filme não chega para explicar a profundidade e importância do tema que se propõe a retratar: a imigração. No entanto, pode servir como um alerta, que não deveríamos de continuar a ignorar.



















