Matthias e Maxime são amigos de infância. Cresceram juntos, convivem com os familiares um do outro e integram um típico grupo de amigos, composto exclusivamente por homens à beira dos 30 anos. Embora os pormenores sejam apenas sugeridos, este não é, ainda assim, um grupo homogéneo – os homens têm diferentes percursos de vida, níveis de rendimento, cores de pele e orientações sexuais. Mas o grupo não deixa de representar uma certa visão do que é a amizade no masculino, assente na lealdade, na competição, na ambição, e no companheirismo.

O que se destaca na dinâmica amical é, contudo, a tendência comum para se resistir ao sentimentalismo e à discussão de emoções, que, reprimidas, vêm ao de cima sob a forma de agressividade. Seja em apostas, jogos de equipa ou discussões, é nestas ocasiões que os nervos e os sentimentos recalcados atingem o ponto de fervura e são exteriorizados hostilmente. O olhar da câmara de Dolan é, nestes momentos, particularmente acutilante; esta é, afinal, uma temática que atravessa vários, senão todos, os seus filmes. As fronteiras movediças da masculinidade são terreno fértil.

É que Matthias e Maxime partilham um beijo quando participam na gravação de uma curta-metragem, feita pela irmã de um amigo. E esse evento prova ser determinante para os dois, lançando-os numa espiral de fúria, dúvidas e arrependimentos. Emocionalmente, o filme é uma grande lição, contando com atuações autênticas e um guião que não evita os momentos mais confrangedores. Ver Matthias & Maxime é uma experiência surpreendente, frustrante, desapontante e emocionante em doses similares.

Ainda assim, esta está longe de ser uma obra do calibre de Mommy, a obra-prima do realizador. Um dos aspetos que mais deixa a desejar é a caracterização de Matthias: a sua escassez de diálogo não nos permite penetrar os seus pensamentos, e Dolan prefere filmá-lo constantemente removido da realidade, distraído e absorto em si. Outras personagens secundárias, como as parceiras dos personagens titulares, acusam também debilidade, tendo uma presença inconstante e inconsequente.

A realização de Dolan, embora consistente com o seu trabalho no passado em termos audiovisuais, é aqui mais contida. Este é, aliás, provavelmente o filme mais estilisticamente moderado da sua carreira, o que, comparativamente ao disastroso The Death and Life of John F. Donovan, representa uma grande melhoria. Sem comprometer a sedução das imagens e da banda sonora, este registo corta a histeria e a tendência “videoclipe” que por vezes tem marcado os seus filmes. Num tom mais austero, mas cheio de atenção ao pormenor, é possível seguir o turbilhão emocional dos protagonistas, pois em vez de melodrama, aqui há suspense.

O filme é, neste sentido, marcado por uma sensibilidade extraordinária, imagem de marca do cineasta canadiano. A ansiedade sobre a identidade e a sexualidade é palpável nestas personagens, e o seu destino é brilhantemente questionado nas imagens finais. Se Matthias & Maxime não é o que de melhor Dolan já produziu, aponta apesar de tudo na direção de um ressuscitar promissor.

Pontuação Geral
Guilherme F. Alcobia
Jorge Pereira
Hugo Gomes
matthias-maxime-variacoes-sobre-a-masculinidadeAos 31 anos, Xavier Dolan lança o seu oitavo filme e começa a regressar à forma. Com um estilo mais comedido, mas igualmente expressivo, o realizador volta a abanar as convenções sobre a masculinidade.