Se no ano passado vimos Honoré num registo naturalista e sereno, empenhado em retratar realisticamente um dos quotidianos da homossexualidade dos anos 1990 (falamos de Agradar, Amar e Correr Depressa), o seu novo filme abandona esse registo para entrar numa espécie de realismo mágico. Neste Quarto, idealiza-se o cinema como o espaço por excelência para figurar, para sonhar, para dar corpo ao que é psíquico e imaginário. Infelizmente, esse exercício não vai além da artificialidade e do ludismo.
Maria, interpretada por Chiara Mastroianni com um temperamento e ritmo muito expressivos, é casada com Richard, que vem a descobrir que a mulher não só o está a trair, como o tem feito ao longo do casamento. Ao confrontá-la, Maria decide sair de casa de modo a dar espaço a ambos para refletirem sobre o que querem para o futuro do relacionamento. Eis que então se muda para o quarto titular, localizado no lado oposto da rua onde vive com o marido, e de onde pode ver o interior do seu apartamento. O que se segue é uma mistura de elementos hitchcockianos (o espiar pela Janela Indiscreta), fellinianos (as fantasias materializadas de Julieta dos Espíritos) e o romantismo francês (que ecoa um outro título recentemente estreado, La Belle Époque).
É nesse quarto que Maria é visitada pela versão mais jovem do seu marido (Vincent Lacoste), pelo amor de juventude que ele abandonou, pela mãe, pela avó (ambas já falecidas), pelo conjunto de amantes com quem traiu o marido e até pela corporização da sua “vontade”. O passado entra quarto adentro e vem desafiar o presente, de modo literal. As memórias invadem então a reflexão de Maria, que se vê confrontada com as suas vergonhas, remorsos, sonhos, expetativas e fantasias, que a obrigam a medir a correspondência entre o real e o esperado. Neste universo plástico, que atravessa tempos e espaços, tudo vem ao de cima em tom ora cómico, ora dramático.
É de apreciar que Honoré consiga ser cómico não só através do diálogo, mas também de forma cinemática e visual. Porém, o humor funciona apenas como mais um elemento de jogo, mais uma matéria a ser maleada, que contudo foge a qualquer comentário ou ideia satisfatória. Embrenhado que está o enredo nos momentos finais, numa metafísica fabulosa em que personagens se reencontram consigo mesmas e não se reconhecem, a conclusão deixa francamente a desejar, optando por um final em aberto que põe em causa a relevância de tudo o que se passou.
Com este Quarto 212 (que em nada evoca aquele outro grande quarto do Cinema, de número 237), Christophe Honoré cai constantemente em tendências autoindulgentes (de que a música é talvez o maior sintoma) e realiza um filme menor, de interesse esporádico, em que se limita a testar algumas ideias de que se colhem poucos frutos.



















