Com o “desgosto malandro” estampado no rosto depois da separação mal resolvida de Joker, ei-la de regresso: Harley Quinn (Margot Robbie) está de volta a uma Gotham vibrante e esgazeada, acompanhada por uma trupe de (anti-)heroínas com a pedalada de uma banda de rock n’ roll. Filme vibrante e apaixonadíssimo pela sua protagonista, Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação De Uma Harley Quinn), está aí para mostrar que há vida no universo dos super-heróis.

Numa altura em que as histórias de super-heróis teimam em quebrar o espírito de desconfiança e desinteresse provocado pela saturação – de ideias, de mercado, de tudo e mais alguma coisa – promovida pela Marvel e o seu universo expandido, começa a ser claro que a DC Comics não pretende repetir exatamente a mesma fórmula. E se é verdade que não o faz também por uma questão de pura sobrevivência e viabilidade económica, podemos desde logo começar por guardar para outra oportunidade o mais cínico e previsível dos comentários, e ir ao encontro de um filme capaz de jogar com algum brio com o imaginário da cultura popular. Não só pela mobilização explícita de momentos canónicos da história do cinema, mas sobretudo pela vivacidade com que se atira ao próprio universo de super-heróis que entretanto se tem vindo a fixar no campo da imagem em movimento: pense-se, por exemplo, na cor e vivacidade pulsante saídos desta Gotham, e contraste-se isso com o negrume funesto que está associado à cidade no imaginário popular, para se perceber de imediato que há aqui uma paixão muito vincada na aproximação ao género.

O filme conta uma história passada depois dos eventos de Esquadrão Suicida, com Quinn à procura do seu lugar no mundo…o que no caso concreto é sinónimo de uma série de saídas noturnas em clubs, à boa maneira de menina mandriona, sempre bem regadas com uma dose saudável de shots. É num desses espaços que se cruza com Roman Sionis (Ewan McGregor, num registo bastante gingão e sempre cheio de graça), o Máscara Negra e vilão da narrativa, formando-se a partir daí um grande ziguezague de peripécias, que opõem Quinn e um conjunto de cúmplices com pinta de outsider, ao antagonista dono do clube.

Os contornos feministas e de “emancipação feminina” que cercam o filme partem daqui, mas nunca ameaçam sufocar a história, mantendo sempre os olhos postos no cinema enquanto máquina de entretenimento. Longe de ser uma obra politizada ou militante, o filme realizado por Cathy Yan procura sobretudo explorar um espaço mais próximo humor e ação descomplexados, do que cinema panfletário. O motor narrativo do filme usa e abusa de flashbacks que nem sempre jogam a favor da clareza narrativa, mas é justamente dessa fricção que acabam por surgir os momentos de maior extravagância visual, como aquela belíssima rutura em que Quinn aparece transfigurada na Marilyn Monroe de Os Homens Preferem as Loiras, de Howard Hawks.

E é claro que o grande trunfo aqui é uma Margot Robbie a “rular” à esquerda e à direita, numa entrega ao papel com uma convicção absolutamente notável. Quantas foram as vezes, nesta “tradição” de filmes de super-heróis, em que um ator de primeira linha acreditou no personagem que tinha em mãos? Contam-se pelos dedos de uma mão, e dos que sobram não reza a história. Robbie, ela mesma que em 2015 propôs a ideia para este spin-off à Warner Bros, e que trouxe agora para o grande ecrã também como produtora. Chapeau!

Pontuação Geral
José Raposo
Hugo Gomes
birds-of-prey-fantabulastica-emancipacao-harley-quinn-margot-robbie-menina-do-caosSolteira, sexy e peculiar, Harley Quinn está de volta - como estrela principal - ao grande ecrã