O paralelismo temático entre este Richard Jewell e Sully, o filme que Eastwood realizou em 2016 sobre o piloto Chesley Sullenberger, é incontornável. Ambos tratam de notáveis eventos da história recente dos EUA – a aterragem de um avião defeituoso no rio Hudson em 2009, a detonação de uma bomba nos Jogos Olímpicos de 1996 – e dos heróis que salvaram as vidas daqueles que seriam vitimados por esses desastres.
Tal como no caso de Sully, o ato heroico de Richard Jewell depressa foi escrutinado publicamente pela justiça e pelos órgãos de comunicação social, gerando-se um circo mediático em torno da sua figura e das verdadeiras intenções por detrás da sua proeza. É nesta dinâmica entre herói, forças policiais e os média que Eastwood centra o seu olhar, escrutinando por sua vez o processo de julgamento “na praça pública” que hoje tanto caracteriza todo e qualquer caso extraordinário.
Se todos os lados são aqui culpabilizados pela invasão de privacidade, assédio moral e injúria com que Richard deve lidar, os média são particularmente criticados. Olivia Wilde interpreta Kathy Scruggs, a jornalista do Atlanta-Journal Constitution que cobriu o caso, num papel caricatural e consideravelmente exagerado quando comparado às restantes personagens. O guião vilifica-a e emburrece-a, apesar de a tentar redimir no ato final. Mas Wilde interpreta-a nesse registo exorbitante que em tudo contrasta com as atuações afinadas de Paul Walter Hauser (no papel principal), Kathy Bates (como sua mãe) e Sam Rockwell (o advogado). Este trio mantém a credibilidade e autenticidade que falta ao arco narrativo sobre a reportagem jornalística.
E juntos esses três atores formam uma dinâmica que em muito segura o filme – o qual, no geral, segue a competente fórmula narrativa hollywoodesca, assente em caracterizações pseudo-psicologizantes e fáceis rivalidades entre “bons e maus”. O que faz de Richard Jewell uma obra simultaneamente hábil e insípida é essa previsibilidade da lógica narrativa, que resulta em alguns momentos e frusta embaraçosamente noutros. Mas Hauser, Bates e Rockwell entrelaçam-se com uma genuinidade que não deixa o espetador desapegar-se da história.
Esta obra solidifica portanto o trabalho que Eastwood tem vindo a fazer nos últimos anos, de caráter mais político, bem como o solidifica como um dos realizadores norte-americanos mais centrados no contexto específico dos EUA. A sua carreira sempre foi marcada por temáticas de relevo no país e Richard Jewell é um filme absolutamente atual e relevante, mesmo que não especialmente perspicaz.



















