É de recordar que, não há tanto assim, um jornal referia a existência de uma nova vaga portuguesa a surgir principalmente no seio da docuficção, que a trabalhava para conceber novas linguagens e formas quanto à sua representação. Nessa dita “frescura”, enumerou-se com principal destaque Leonor Teles (A Balada do Batráquio, Terra Franca), a mulher que lidera um grupo composto por Paulo Carneiro (Bostofrio), Tiago Hespanha (Campo) e por fim, Pedro Florêncio.

Confirma-se de facto esse sangue novo que inova uma característica fílmica que nós portugueses bem sabemos lidar, permanecendo ao mesmo tempo fiéis a tradição do género. E é quando tentamos encaixar Turno do Dia, um embarque observacional na central emergência médica da linha 112 (INEM) localizada em Lisboa, que deparamos com o seu sentido existêncial e uma contradição com o primeiro ponto referido.

Aqui, Florêncio é convidado a permanecer no dito turno e registar um exemplo do dia a dia destes operadores, que tentam auxiliar e lidar com as diferentes situações, algumas, que presenciamos no filme, não contam com a cooperação do “queixoso”.

Nesse termo, Turno do Dia assume-se como um quadro interativo do espectador, que como testemunha “invisível” aguarda nas sombras e assiste a estes dramas quotidianos de quem consome um mediático telejornal em voga. Não é de todo em vão afirmar que se pressente aqui um certo tom voyeurista no captar dessas urgências (ou nem tanto) como parte de um não específico caso de estudo. Aliás, depois dos relatos nesta costura de planos estáticos, o que existe para além do colecionar de situações?

Para entendermos a contradição de Florêncio quanto à suposta “vaga” em que se insere, há que regressar a Bostofrio, e novamente recordar a orgânica e o rigor de Paulo Carneiro em captar um filme genuíno, sem que para isso seja desenfreadamente cru. Depois, há que partir para o primeiro plano de Turno de Dia, um olhar inclinado para o chuvoso céu de Lisboa com uma duração de 2 minutos para que o dito plano fixo seja desmontado por um travelling de câmara na mão numa jornada ao nosso centro de operações.

 

O resto é uma planificação baixa a meio caminho andado ao estilo Ozu – o filme coloca o espectador ao mesmo nível destes “anjos da guarda”, sem nunca encará-los de baixo ou de cima, mas sem um controlo e uma logística para que o filme funcione, ou no modo guerrilheiro (seja “verité“) ou esteticamente trabalhado. Este “nem carne, nem peixe” apresenta-nos uma das piores características de uma semente plantada no “calor” de muitos festivais portugueses que brota sem conseguir atingir parâmetros distantes, ficando novamente em solo português a ver as ambulâncias passar.

Obviamente que Turno do Dia é focado no tema acima da sua estrutura narrativa ou de exposição e, mais um vez, revela-se uma tentativa de criar produções com a “preguicite” aguda por vezes valorizada por um círculo ainda pequeno. Pedro Florêncio poderia ter aprendido algo depois do seu anterior À Tarde: que por vezes não se trata de quanto “dura um plano” para concretizar um filme, envolver o trabalho nas mais diferentes frentes, seja de pesquisa, terreno, planificação, linguagem e, por fim, seleção e montagem.

Em Turno do Dia, exceto o material filmado e das “desventuras” destes operadores com paciência de ouro, não se nota a mão do realizador.

Pontuação Geral
Hugo Gomes
turno-de-dia-por-hugo-gomesSerá Pedro Florêncio um nome a reter no futuro do nosso panorama cinematográfico?