Anxo volta, depois da guerra, à sua vila e, pelo caminho, vai tendo diversos encontros construídos sobre um arquivo literário e histórico que pretendem mostrar o que poderá ter sido a “Longa Noite de Pedra” da ditadura franquista. Talvez pudesse ser esta uma sinopse deste novo filme de Eloy Enciso, o sucessor de Arraianos apresentado no doclisboa há anos. “Talvez” porque, como o anterior, a incoerência é a maior constante dos dois.

Se em “Arraianos” as cenas nocturnas eram pouco visíveis e não funcionavam, Eloy conseguiu, desta vez, ultrapassar e mostrar, num filme filmado quase exclusivamente de noite, o céu quase brilhante e cheio de estrelas. Técnica ou pós-produção, o facto é que a imagem é um dos pontos fortes do filme, com uma coerência formal que falta ao conteúdo. Ainda assim, há uma rigidez nos planos e nas suas transições que quase parece antiquada.

A selecção dos textos está na base de um efeito curioso: ao mesmo tempo inconsistente e consistente. Inconsistente pelos estilos e pelo disparar para todos os lados, mas consistente pela falta de qualquer subtileza. Há um ponto em que dois pedintes dividem pão na porta de uma igreja e falam sobre a esquadra de polícia que está a ser construída. Ao fundo, ouvem-se os sinos da igreja. Os sinos eram mais subtis do que qualquer coisa proferida (e também da forma como era dita).

A utilização de não-actores acaba também por minar o filme, com as poucas selecções que poderiam funcionar a saírem balbuciadas, mas cheias de importância, das bocas desabituadas. Essa mesma importância é aplicada a qualquer frase, sinal óbvio de quem não conhece o trabalho de actor e pensa que tudo tem de ser pronunciado da mesma forma, ainda que consigam perceber que ninguém o faz na vida real. Se Brecht teria ficado feliz com o distanciamento causado, a longo prazo o texto perde o impato com a monotonia causada.

A estrutura do filme é outro problema. Dividido em três partes com ritmos diferentes, a última destas é a mais lenta, epistolar e escura, com a intenção óbvia de querer mostrar a forma como a ditadura se foi estabelecendo e cortando qualquer luz de esperança, acaba por se tornar um desafio e, acreditando pelo número de pessoas que ia saindo da sala, por perder o interesse de quem o vê. Talvez o efeito tenha sido acentuado pelas condições em que foi apresentado, depois de uma hora de indulgência e auto-parabenização, na abertura desta edição do doclisboa, mas o resultado final é o mesmo.

Mas o maior problema é o resultado final. Mesmo aceitando a patacoada (ups! denunciei-me) da docuficção ou das “ficções do real”, à questão do que é que alguém que não conheça o tema da guerra civil espanhola e da ditadura franquista tira ou aprende deste filme só se pode responder, com a maior das honestidades: nada. A redução do horror vivido ao deambular perdido de uma personagem pelo bosque ou a uma vaca que não consegue parir (uma das cenas “simbólicas” usadas) é tão insuficiente que leva a questionar como será recebido este filme por alguém que ainda se lembre desse tempo.

Como se este O Fugitivo coxo e triste que se arrasta pelo ecrã conseguisse mostrar a perseguição, as execuções, as valas comuns, e tudo o mais que aconteceu durante essa altura. Lanzmann e Didi-Huberman discutiram, há anos, se se podia representar por imagens o horror (explicitamente do Holocausto, mas também aplicável aqui), Eloy Enciso não participa nesta discussão e cria imagens só por criar, sem qualquer objetivo ou reflexão.

Pontuação Geral
João Miranda
Jorge Pereira
longa-noite-por-joao-mirandaLanzmann e Didi-Huberman discutiram, há anos, se se podia representar por imagens o horror (explicitamente do Holocausto, mas também aplicável aqui), Eloy Enciso não participa nesta discussão e cria imagens só por criar, sem qualquer objetivo ou reflexão.