Por detrás deste Joker está o realizador norte-americano Todd Phillips, responsável por fenómenos mundiais como Starsky & Hutch e A Ressaca. Com toda a legitimidade, uma pergunta que tem surgido acerca do seu novo projeto questiona porque é que, após quase duas décadas a filmar comédias com Ben Stiller, Owen Wilson, Will Ferrel e Zach Galifianakis, Phillips trocou de registo a favor de um drama de origens sobre uma das personagens de BD mais famosas de sempre, com Joaquin Phoenix ao centro. A sua resposta: «A comédia é a verdade e a verdade tornou-se ofensiva nos EUA. Por isso afastei-me das comédias, pois as pessoas não sabem lidar com a verdade. Depois pensei, existem outras maneiras de mostrar a verdade num outro tipo de filme.» E eis que nasceu Joker.

O declarado afastamento da comédia não é um eufemismo: este é um filme inteiramente sério, e que quer ser tomado como tal. É um filme chocante, brutal, sem uma ponta de humor e totalmente empenhado em retratar um mundo tóxico, explicitamente malvado, de onde a compaixão e a fraternidade foram apagadas. Uma verdadeira distopia, não menos frustrante por ser tão literal e banalmente justificada como produto da ganância e permissividade do capitalismo liberal. É impossível não compreender o argumento de Phillips sobre a desumanização e a perda de valor (e de valores) da vida humana sob este sistema, pois desde a primeira cena até à última essa é a única ideia que, insistentemente, é apresentada.

A elementaridade e literalidade que marcam esse raciocínio contaminam também a caracterização de Arthur Fleck, um palhaço de profissão que, devido a uma sucessão de eventos infelizes, desenvolve uma psicopatia severa. As próprias excentricidades do homem são todas elas medicamente diagnosticadas, e essa mesma lógica de racionalização expande-se para a psicopatia que nele cresce – ao longo da vida Arthur foi maltratado, agredido, abusado, ignorado, o que, na lógica desta narrativa, legitima o comportamento hiperviolento que assume na segunda metade do filme. Não é que por detrás da perturbação mental deste homem não possam estar – como, de resto, normalmente estão – motivos sociais, familiares, genéticos; mas Phillips não apenas desculpa as reações de Arthur, considerando-as expectáveis, como tenta justificar o injustificável, considerando-as razoáveis.

Neste sentido, glorifica a doença de Arthur, bem como a sua vontade de vingança, apresentando-as como rastilhos lógicos de uma revolução social. Os crimes de Arthur ganham fama sob o lema «Kill the rich» e o seu disfarce de palhaço torna-se símbolo da luta entre classes: uma horda de homens usa a máscara de Joker como signo de união e tumulto. O trauma coletiviza-se e o que tem a intenção de ser uma história sobre empatia é, na verdade, um choro de autocomiseração.

Entretanto o filme está de tal forma concentrado em Joaquin Phoenix e na sua atuação extraordinária, assombrosa, exorbitante, que não consegue conceber Arthur como outra coisa senão um herói. A fotografia quase que o venera, repleta de close-ups à sua cara, constantemente a babar-se sobre esta personagem impressionante, cuja perspetiva subjetiva, na verdade, nunca percecionamos. O violoncelo melodramático de Hildur Guðnadóttir, compositora do filme, é tão estonteante e formidável como o resto do filme, sofrendo portanto dos mesmos defeitos e qualidades de uma obra que, globalmente, é extremamente eficaz, provocadora e desmedidamente hiperbólica.

Pensando bem, Joker nem é assim tão diferente dos fenómenos de comédia que Phillips realizou no passado. São produções com orçamentos chorudos, lideradas por populares atores, que ousadamente reanimam um género ao romperem com a convenção e as boas maneiras, tornando-se êxitos de bilheteira. Efetivamente, não se espera outra coisa de Joker: o seu espírito subversivo e original é raríssimo no entretenimento mainstream e sem dúvida encontrará eco e acolhimento um pouco por todo o lado. Mas a força estilística e narrativa desta obra condensa-se à custa da crítica construtiva e da dignidade humana, por capitalizar a overdose, a ideologia fácil, a exploração dos mais fracos, e, porque não dizê-lo, por encarar o terrorismo como arma política oportuna.

Pontuação Geral
Guilherme F. Alcobia
Hugo Gomes
Fernando Vasquez
Jorge Pereira
Rodrigo Fonseca
André Gonçalves
joker-por-guilherme-f-alcobiaO seu espírito subversivo e original é raríssimo no entretenimento mainstream.