Brad Pitt é um astronauta com o dom de não exprimir demasiado as emoções num filme igualmente apático de um dos fenómenos de culto cinéfilos mais inflacionados do século XXI: James Gray. Talvez seja a altura de abrir um buraco no fato espacial do cineasta também.
Gravidade. Este foi o ponto zero da década que mais terá investido para a narrativa espacial no cinema, com o patrocínio aqui e ali da NASA. Não nos devemos queixar: foi uma boa década para este subgénero de ficção científica, com espaço tanto para o filosófico como para o comercial (às vezes num 2 em 1, como foi Interstellar). Um ano após First Man de Damien Chazelle, perpetua-se a nova tradição de mostrar um filme “do espaço” para a mostra outono/inverno, a piscar inevitavelmente olho a prémios partindo de Veneza.
Desta feita, temos uma coqueluche de geeks de Academias e Cinematecas internacionais: James Gray, dono já de si de um culto daqueles que é preciso já estar no meio para perceber que existe de facto algo. É que de facto, saimos do círculo cinéfilo, e Gray é um zé ninguém, comparado com Christopher Nolan (cruzes credo, dirão os membros do culto!).
Gray tem percepção disto, e na amaldiçoada produção que é esta nova tentativa de obra-prima com retoques de pós-produção e sinais de desconfiança de grande estúdio, existe essa vontade de ser maior do que já é. O orçamento é maior, fala-se em 80 milhões de dólares, mas julgamos ser mais. O dinheiro pelo menos vê-se no ecrã; a técnica de cineasta é aqui e ali impressionante auxiliada pelo diretor de fotografia Hoyte van Hoytema (que filmou os últimos dois Nolan, ah pois é), embora sempre reminisciente de um passado que não orbitava em torno de outros ecrãs senão a tela branca.

É um filme que pensa que pode ser grande apenas com uma linha de pensamento que resumida gera num ditado pessoal: temos que aprender a desistir dos nossos pais, e construir uma vida nossa. A personagem de Brad Pitt aqui aprende a lição literalmente, lição que dura praticamente duas horas, onde o storytelling parece ter sido conceito que não passou pela equipa envolvente. O seu underacting joga bem com uma personagem que nunca ultrapassa os 80 BPM de pulsação, mesmo em situações de vida ou morte. Curioso espelho para um filme igualmente apático na maior parte da sua duração, onde terá sido preciso inserir cenas de ação a cuspo, como se de repente, houvesse uma incerteza (da parte da produção?) sobre se esta história freudiana de superar o pai seria o suficiente para pôr pessoas nas salas…
Valha-nos um susto primata, para disparar o pulso, mas é pouco, e claramente, pese os efeitos irrepreensíveis, é impossível sair desta película com a sensação de se ter ganho algo com esta sessão de terapia completamente sanitizada, com tiques e pretensões de querer ser Malick ou Coppola no pico, quando nem sequer há o mínimo de preocupação em construir um mundo que retenha o espectador para além de pintá-lo de cores bonitas…



















