Nem só de cinema de arte vive o (pouco) cinema russo que cruza as fronteiras da cortina de ferro e o realizador Kirill Sokolov conseguiu a façanha com outro tipo de registo. Fortemente influenciado pelo cinema ocidental e abrindo com uma citação do escritor irlandês Flann O’Brien (“Ele não viveu para saber quem foi o vencedor“) – o filme traz episódios de violência “cartoonesca” que se poderiam encontrar em Quentin Tarantino e, principalmente, a edição rápida, os ângulos inusitados e a mais completa amoralidade presentes nos primeiros filmes de Guy Ritchie.
Não é muito certo que o jovem Matvei (Aleksandr Kuznetsov) esteja a fazer a melhor coisa ao ir bater à porta de um homem “armado” de um martelo para manda-lo desta para melhor. Para além de uma arma de eficácia duvidosa, lá dentro encontra-se Vitaliy Khaev (Andrey Gennadievitch), um sujeito que vai se revelar um osso duro de roer. Mas Matvei está apaixonado pela bela Olya (Evgeniya Kregzhde) e esta lhe disse que o homem que ele deve matar é um pai abusivo que a violou quando era pré-adolescente.
A partir daí tem-se um banho de sangue, pancadaria “over the top”, grandes reviravoltas no enredo (nem falta o artifício da mala de dinheiro!) e sequências inacreditáveis de humor negro. Numa delas dois polícias estão num cenário de crime onde uma mulher foi esquartejada. Um deles põe-se a olhar sonhadoramente para a cabeça dela, separada do corpo, e diz “Ela é muito bonita“. Resposta do outro, depois de um olhar atento: “Não, não é o meu tipo. E além disto lembra a minha filha“.
Não é muito útil cair no cliché de dizer que o filme faz um qualquer retrato da sociedade russa – ainda que, obviamente, ele não se abstenha de umas boas piadas, como na a sequência em que um esquartejador que vai ser tirado da prisão mediante suborno exibe um casaco com uma enorme inscrição a dizer RUSSIA). Mas hoje em dia, para usar a famosa analogia de George Orwell em A Quinta dos Animais, é impossível distinguir os humanos dos porcos – o que equivale dizer que entre Oriente e Ocidente já não existe diferença entre a ganância generalizada e a predisposição para vender a mãe (ou, neste caso, o “Pai, Morra!“, do título russo) por um punhado de notas.



















