Curiosa obra australiana de ficção científica que nos primeiros dois terços poderia perfeitamente ser passada no Universo Exterminador Implacável, I am Mother é acima de tudo um drama de mistério onde questões como a maternidade e a natureza humana se levantam num mundo onde a “última” réstia da espécie humana vive resguardada num complexo altamente tecnológico com a sua mãe, um robô.

Não é só à saga de James Cameron que esta obra em estreia de Grant Sputore vai buscar influências e claras inspirações, existindo um piscar de olho a Ex-Machina (na temática, tensão, sentido de descoberta e limitação dos espaços de filmagens), Alien, Rua Cloverfield, 10 (e o seu “mood” Hitchcockiano de mistério) e – quem sabe – no livro infantil Em busca de WondLa, que segue uma jovem que cresceu num Santuário (um complexo subterrâneo seguro planeado para abrigar seres humanos enquanto a Terra recupera de um cataclismo ambiental) tendo como única companhia Mater, uma robô.
Por aqui o nosso foco é uma adolescente (a dinamarquesa Clara Rugaard a transmitir a “vibe” da sueca Alicia Vikander) que aparentemente vive resguardada e protegida pela sua mãe, um robô (a voz de Rose Byrne a ser marcante e semelhante à de Douglas Rain como HAL 9000 ou de Scarlett Johansson em Her), enquanto esperam que lá fora o ambiente esteja novamente saudável para os seres humanos caminharem. As coisas mudam quando a jovem encontra um pequeno roedor dentro da imaculada e esterilizada instalação, sugerindo que fora dali as coisas não talvez não estejam tão complicadas como a sua “mãe” diz. Tudo ganha um novo rumo e as dúvidas instalam-se ainda com mais força quando uma estranha mulher (Hillary Swank em modo Sarah Connor de Terminator) entra no complexo, fazendo a jovem duvidar das razões porque a sua mãe robotizada a mantém ali fechada. Será que ela está mesmo a ser protegida do Apocalipse ou, pelo contrário, é uma refém controlada por alguém com segundas intenções?
Embora o cineasta nos entregue algumas respostas demasiado cedo, I am Mother é um filme permanente tenso, com uma atmosfera que incide substancialmente nas dúvidas da personagem e na sua curiosidade – tão humana – em descobrir mais além do seu casulo, mesmo que isso implique a sua destruição ou o afastamento da sua “família”. É o típico filme de adolescentes a saírem da sombra dos pais, a questionarem tudo e a tentarem eles mesmo ter as suas respostas, em vez de acreditar cegamente no que lhes dizem. O que varia é o setting distópico e futurista, com a narrativa a jogar razoavelmente com a evolução rebelde e existencialista de alguém que quer ir além do conhecido e protocolado.
Assim, e apesar de no final haver alguns tropeções derivados de uma narrativa que nas suas reviravoltas joga sempre pelo seguro, I am Mother é um exercício razoável e uma alegoria à aprendizagem mútua, ao crescimento e ao ato de questionar- que nos leva a uma emancipação e descoberta que pode até nos destruir, mas que é essencial.

Jorge Pereira

