«Elisa e Marcela» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Por onde anda a Coixet da década de 2000? É que a que vemos nos últimos tempos – Ninguém Quer a Noite (2015), A Livraria (2017), Elisa e Marcela (2019) – parece perdida em contar histórias contínuas de resiliência de mulheres sem nunca verdadeiramente tirar as suas personagens da mais vulgar das existências cinematográficas

É aborrecidíssimo e chega mesmo a ser embaraçoso o tratamento plastificado e artificial que a catalã Isabel Coixet dá à história de Elisa e Marcela, um casal que no final do século XIX e princípio do século XX, se enamorou, casou e teve de fugir da Galiza para poderem viver juntas.

Esta história de amor, perseverança e de suplantação das vicissitudes de uma sociedade fechada, profundamente patriarcal, religiosa e obtusa, demonstram que foram ainda precisos mais de 100 anos para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse legal, lembrando-nos a cineasta – nas palavras finais em jeito powerpoint – que existem ainda dezenas de países onde essa união é interdita e que em alguns deles a morte é ainda utilizada como pena para relacionamentos gays.

Ora, tecnicamente, a união de Marcela e Elisa foi o primeiro casamento lésbico em Espanha, e o único “oficial” pela Igreja, isto após a primeira – para escapar ao escrutínio da aldeia ter assumido o papel de homem (chamado Mário) para conseguir enganar o pároco da igreja local. Ainda assim, os rumores e mexericos sobre a relação traíram a dupla, obrigando-as a fugir para Portugal, mais concretamente para a cidade do Porto, onde Marcela viria a uma filha, não sabe de quem. A verdade é que o certificado de casamento nunca foi anulado e nos tempos que se vivem hoje, em que diversos países ainda discutem a hipótese de casamentos do mesmo sexo, um filme como este tem extrema pertinência, pena é que a cineasta nunca consiga encontrar o tom certo para atrair – ou sequer convencer o espectador – com o suposto amor que as duas viveram.

Em primeiro lugar, e é preciso dizer, não há química nem uma verdadeira dinâmica amorosa entre as protagonistas, e isso fica ainda mais transparente nas tentativas da realizadora em captar os momentos passionais e sexuais entre as duas. Depois, sabemos que Coixet é fanática por comida (ler artigo), mas a forma como ela coloca alimentos como pilares para o prazer sexual da dupla soam, acima de tudo artificiais e derivativos (De 9 semanas a ½ a A Criada), conseguindo em alguns dos momentos ser profundamente embaraçosas e reflexo de uma direção (do filme e de atrizes) desastrada que nunca consegue o tom certo. É que por aqui nunca se sente uma verdadeira paixão, até porque as palavras que estas mulheres proferem têm quase todos um caráter postiço, refletindo-se isso verdadeiramente num imenso vácuo de carnalidade, crueza e alma, sobressaindo apenas o elemento de discrição a que ambas estão obrigadas. Sim, nunca – nem quando estão sozinhas – se “sente o cheiro” a sexo, a chama da paixão, o verdadeiro prazer (ou a ilusão dele), e até a expressividade das atrizes são reflexos de lugares comuns, padronizados e corriqueiros de inúmeras obras do mesmo género.

Para piorar, noutros momentos, aqueles que requeriam que a realizadora mostrasse alguma tensão – consequente da pressão social em torno do casal – Coixet volta a falhar na abordagem, sendo os momentos finais, já quando a dupla está no Porto, sofríveis e de uma rapidez na resolução de alguém que percebeu que o filme tinha de acabar brevemente.

Por cima disto tudo, Coixet ainda implanta um preto e branco como que evocando uma atmosfera de permanente cinzentismo na vida destas mulheres, sendo aquela técnica do iris out , tão característica dos tempos do cinema mudo, aqui aplicada numa espécie de transição de capítulos com um toque técnico pessoal sem qualquer resultado prático para além de sublinhar ao espectador que ele é um voyeur desta história sensível que merecia muito mais queimor (não confundir com sensacionalismo ou sensualidade).


Jorge Pereira

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