«Aladdin» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O remake do clássico de animação da Disney revela-se um produto profundamente dispensável, descartável mesmo, mesmo na sua forma de objeto de entretenimento passageiro.

Longo e entediante remake do clássico de animação da Disney, Aladdin sobrevive apenas dos momentos de espetacularidade e esplendor de produção musical, mas mesmo estes não são comparáveis na sua envolvência e impacto na narrativa como os do filme original (que não era nada de especial) o foram.

História de pequenos ladrões, sultões e princesas retratada da forma conservadora (mas com facelifts liberais e progressistas), em Aladdin não são meia dúzia de fetiches visuais (marcas autorais, se preferirem) do cineasta Guy Ritchie ou os escassos desvios narrativos de emancipação feminina (mais em jeito de sonhos e ideias que em ações) que transformam o filme em algo diferente do anonimato de todas essas historinhas de fundo moral bem vincados que o estúdio lança há décadas. Ainda assim, sobressai Naomi Scott, que interpreta a princesa, revelando carisma, charme e dotes vocais, mas tudo isto revela-se muito pouco no que diz respeito a inovação, soando mesmo – em alguns momentos – a um produto que já nasceu datado.

Para piorar, e já se sentia isso a léguas, o humor desce longos pontos em relação ao trabalho original, com Smith a dar mais sarcasmo ao seu Génio, mas a perder força em comparação a Robin Williams, que enchia a sua personagem de magnetismo e inspiração. O resto é o que se pode esperar de mais uma adaptação em imagem real de um produto Disney (a culpa desta vaga de remakes é de Alice no País das Maravilhas): muito show off, pouca ou nenhuma identidade e apenas a sensação de estarmos perante uma máquina de fazer dinheiro com orçamento capaz de contratar bons artesãos do género, embora sem os resultados esperados (alguns problemas em sequências CGI).

Assim, e apesar de visualmente bonito e certamente epopeico na ambição, Aladdin é demasiado fino no trato das personagens e história, material quase inerte em mover-se para fora daquilo que já conhecemos dele.

E depois sabemos que – mais cedo ou mais tarde – toda esta vaga de filmes em imagem real vai gerar sequelas, remakes e outras coisas que tal, até porque a Disney está muito mais interessada (e o mercado valida em termos monetários) em repetir fórmulas com pequenos ajustes que facilmente se mostram ultrapassados numa era de avanços tecnológicos e de pensamento como esta. 


Jorge Pereira

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