
As figuras míticas e a realidade andam em convulsão permanente neste The Kid (Billy the Kid – A Lenda), ensaio cinematográfico assinado pelo ator Vincent D’Onofrio (com um pequeno papel no filme), que acompanha a história de um miúdo, Rio Cutler (Jake Schur), que após matar o pai juntamente com Sara, a sua irmã (Leila George, filha de D’Onofrio), cruza o seu destino com Billy The Kid (Dane DeHaan), e – por consequência – com Pat Garret (Ethan Hawke).
Estas figuras lendárias do velho oeste chegaram ao cinema pela primeira vez em 1911 e desde então foram vários os cineastas a reimaginar as suas estórias, com mais ou menos tendência para o espetáculo, com alguma ou nenhuma profundidade, como lendas ou meros humanos entregues a situações extremas, e com dureza e violência consoante o gosto. Arthur Penn em 1958 (Vício de Matar) e Sam Peckinpah em 1973 (Duelo na Poeira) foram dois dos grandes nomes da 7ª arte que entraram em território do mito, sem esquecer a versão juvenil, espalhafatosa e divertida na forma de Jovens Pistoleiros (1988) com Emilio Estevez no papel de Billy.
Agora é a vez de Hawke, com uma bigodaça justiceira, e Dan DeHan, cada vez mais a lembrar um DiCaprio a sujar as mãos, a assumirem os corpos destas figuras, todas elas implantadas num filme de época que se sente emocionalmente gerido pelos tempos modernos. E apesar do pensamento e da masculinidade tóxica presentes serem essencialmente heranças de um passado patriarcal de darwinismo primitivo, D’Onofrio poderia perfeitamente fazer algumas inflexões e oferecer ambiguidades, indo assim mais longe do que limitar-se aos “chavões” do faroeste sem qualquer identidade própria e muitas vezes capazes de despertar risos inadvertidos “me Voy a Cocinar una Carne”. Sim, o que vemos por aqui são perseguições e tiroteios medíocres, personagens esquálidas, um desprezo total pelas mulheres, retratadas mais uma vez como donzelas em perigo, e desenlaces repletos de lugares comuns, isto num coming-of-age que na verdade não o é, já que termina como começou: com uma criançola a disparar sobre o seu inimigo imediato…

Jorge Pereira

