
Nunca há muita frescura numa espécie de remake de um filme que por sua vez adapta uma peça teatral, mas este Aos Teus Olhos mantém a sua temática e urgência focalizada, entregando um drama sem manipulações e sensacionalismos, embora nunca seja verdadeiramente pungente, como por exemplo A Caça de Thomas Vinterberg o foi.
Assinado por Carolina Jabor, nesta versão do filme espanhol El virus de la por (2015) – que por sua vez era uma adaptação da peça teatral de 2011, O Princípio de Arquimedes – seguimos a história de um professor de natação afetuoso – talvez em demasia – que é acusado por um aluno de o ter beijado. A partir daqui começa uma viagem à viralidade e rapidez da informação e dos eventos, a paranoia paternal, e uma verdadeira descida ao inferno do protagonista, debatendo-se pelo caminho o poder das redes sociais na justiça, os linchamentos virtuais, a discriminação através dos estereótipos, e como um rol imenso de personagens é arrastado por uma situação aparentemente inocente.
Jabor filma tudo com travo indie, muitas vezes centralizando a sua câmara na expressividade das suas personagens apanhadas numa avalanche vertiginosa onde o medo é transformado em ódio e salta a primitividade da luta pela sobrevivência. O ator Daniel de Oliveira, que transpira carnalidade e ambiguidades morais logo após umas “piadas iniciais” de mau gosto, consegue gerir com alguma dinâmica – sem cair no overacting – a sua personagem em decadência, mas é rodeado por uma série de figuras – o colega de trabalho, a namorada, o polícia – que têm muito pouco a acrescentar para além de uma presença ao serviço de uma narrativa que no final termina de forma abrupta.
Esse culminar dá assim a sensação que Aos Teus Olhos só existe como mera provocação para gerar debate. Missão cumprida, mas antes dele já as outras propostas (acima mencionadas) o tinham feito melhor e com maior riqueza da linguagem cinematográfica.

Jorge Pereira

