«Aos Teus Olhos» por Jorge Pereira

Nunca há muita frescura numa espécie de remake de um filme que por sua vez adapta uma peça teatral, mas este Aos Teus Olhos mantém a sua temática e urgência focalizada, entregando um drama sem manipulações e sensacionalismos, embora nunca seja verdadeiramente pungente, como por exemplo A Caça de Thomas Vinterberg o foi.

Assinado por Carolina Jabor, nesta versão do filme espanhol El virus de la por (2015) – que por sua vez era uma adaptação da peça teatral de 2011, O Princípio de Arquimedes – seguimos a história de um professor de natação afetuoso – talvez em demasia – que é acusado por um aluno de o ter beijado. A partir daqui começa uma viagem à viralidade e rapidez da informação e dos eventos, a paranoia paternal, e uma verdadeira descida ao inferno do protagonista, debatendo-se pelo caminho o poder das redes sociais na justiça, os linchamentos virtuais, a discriminação através dos estereótipos, e como um rol imenso de personagens é arrastado por uma situação aparentemente inocente.

Jabor filma tudo com travo indie, muitas vezes centralizando a sua câmara na expressividade das suas personagens apanhadas numa avalanche vertiginosa onde o medo é transformado em ódio e salta a primitividade da luta pela sobrevivência. O ator Daniel de Oliveira, que transpira carnalidade e ambiguidades morais logo após umas “piadas iniciais” de mau gosto, consegue gerir com alguma dinâmica – sem cair no overacting – a sua personagem em decadência, mas é rodeado por uma série de figuras – o colega de trabalho, a namorada, o polícia – que têm muito pouco a acrescentar para além de uma presença ao serviço de uma narrativa que no final termina de forma abrupta.

Esse culminar dá assim a sensação que Aos Teus Olhos só existe como mera provocação para gerar debate. Missão cumprida, mas antes dele já as outras propostas (acima mencionadas) o tinham feito melhor e com maior riqueza da linguagem cinematográfica.


Jorge Pereira

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