«The Professor and the Madman» (O Professor e o Louco) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Fazer um filme sobre a construção de um dicionário rigoroso que acompanhe igualmente a evolução da língua inglesa não é de todo um tema que arraste multidões, mas o absoluto caos que foi a produção e a presença no elenco de Mel Gibson, Sean Penn e Natalie Dormer trouxeram este O Professor e o Louco para as manchetes dos jornais, embora quase sempre pelas piores razões.

Já pensado desde o final dos anos 90, quando o livro que o inspirou (The Surgeon of Crowthorne: A Tale of Murder, Madness and the Love of Words) foi lançado, esta produção de cariz clássico entrou num verdadeiro purgatório em 2016 quando após se ter filmado quase tudo, a Voltage Pictures recusou permitir a filmagem de cenas extra em Oxford para dar mais autenticidade. Gibson não gostou, o realizador também não e começou uma batalha legal que se estende até hoje e que levou ao adiamento da estreia para 2019, com Gibson a recusar promover o filme e Safinia a ver o seu nome substituído em alguns mercados pelo fictício PB Sherman.

Em O Professor e o Louco estamos em Londres, século XIX, e acompanhamos os esforços de James Murray, um escocês a quem é incumbido finalizar a construção do dicionário de língua inglesa. Essa tarefa hercúlea leva-o a pedir a voluntários que compilem e lhe enviem palavras dos vários livros que leram e é assim que William Chester Minor, um cirurgião norte-americano encarcerado numa instituição psiquiátrica para criminosos, se junta a Murray.

Colocar qualquer ator no papel de um esquizofrénico abre sempre terreno para o potencial overacting e Sean Penn não consegue de todo fugir a isso, pese embora a sua experiência e qualidade inatacável. O maior problema vem sim do guião, da construção das personagens e da sua exposição e interação, com o australiano Mel Gibson a tanto gritar e usar a retórica para vender o seu discurso à la William Wallace à procura de reforços, como a ser intelectualmente poético e emocionalmente empático. Depois temos ainda Natalie Dormer, já longe da Guerra dos Tronos, a tentar encontrar um lugar na 7ª arte, mas a sua personagem não ajuda, pois na história de dois homens que constroem um dicionário, a sua presença é reduzida a um mero peão romantizado num subenredo repleto de ambiguidades, mas demasiado apressado e fino na exploração das complexidades.

No final, temos ainda uma velha tendência que tem ressurgido em força: o filme parece nunca se decidir o que quer ser, perdendo-se entre a história gloriosa de dois homens ao serviço da língua, dois amigos improváveis, e dois marginais culturais em luta contra um sistema que os reprime. Não ajuda igualmente a intrusiva e excessiva banda-sonora e uma montagem tão clássica e previsível que não lhe fazia nada mal um pouco da loucura e arrojo que os retratados tinham para a sua época.


Jorge Pereira

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