A conclusão de um trabalho de mais de dez anos, Endgame, chega finalmente ao grande ecrã e cumpre todas as premissas que levam um filme ao seu sucesso. Uma orgânica mistura de aventura e emoção, adicionados aos heróis previamente conhecidos dos seus diversos filmes responsáveis pela construção de personagem e caráter, culminam numa longa-metragem que explora as suas diversas camadas e o faz com esmero para não se perder ao meio do caminho.

Era de perceção geral a linha ténue que a própria Marvel criou para si ao tecer uma quantidade inúmera de narrativas e com mais de vinte (sim, vinte) heróis para colocar no ecrã. Entretanto, a distribuição dos seus tempos de aparição e a definição desmascarada dos privilegiados conseguem dar o peso necessário a cada acontecimento, sem contar a colocação de piadas e ironias que finalmente acharam o seu lugar numa narrativa por diversas vezes dramática sem deixar de ter o seu estilo cómico inerente.

Apesar de criar uma norma de equilíbrio entre os pesos de cada personagem na trama, Capitã Marvel é aquela que infelizmente foge à regra. Completamente subutilizada, Carol Denvers pouco aparece e pouco faz diante de toda a recente visualização da sua potência no último filme da MCU. Dela, entretanto, podemos esperar uma cena que levará o público feminino a uma comemoração já há tempos merecida.

Ao estabelecer que Endgame é um filme sobre Capitão América, Homem de Ferro e Thanos, a Marvel constrói uma colcha, não de retalhos, mas de detalhes que fazem toda a atmosfera mais complexa, interessante e, assim, cativante. O espectador compra todo o enredo logo na primeira cena e esse equilíbrio entre o cómico e o dramático demonstra mais uma vez que um “filme de herói”, além de poder, deve criar esse senso de ameaça real e iminente.

E por isso, Thanos, como observado em Infinity War, consagra-se como o vilão mais bem construído de todo o Universo Cinemático da Marvel, e aqui demonstra toda sua inevitabilidade como feitor de um destino tão temido. Crédito para os seus fundamentos que, por serem extremamente verossímeis, culminam numa motivação genuína e passível de apoio por qualquer um que analise o estilo de vida humano atual.

Credível é também a vontade quase sobre-humana de acertar os erros passados, vê-se grande o peso dos costumes Disney neste aspeto, já que o estalar de dedos de Thanos é um símbolo da falha dos heróis. Downey Jr., Chris Evans e Scarlett Johansson criam o trio de ouro, demonstrando toda a evolução das suaspersonagens e deles próprios como atores nesta trajetória de oito anos. Vale ressaltar o peso dramático da dupla formada por Downey Jr. e Tom Holland, que juntos levarão muitas pessoas às lágrimas.

O também participante da cúpula principal de heróis, Thor continua com sua perspectiva cómica – que teve seu ápice em Ragnarok – e sua mudança de visual genialmente não resolvida é mais um ponto para o enredo, que encontra nele o comic relief ainda presente.

 

Em termos de estrutura, Endgame peca na transição entre o primeiro e o segundo ato, já que desenvolve detalhadamente o peso dramático necessário para a sustentação da trama, e arrasta-se além do necessário na reinserção dos heróis em sua caçada a Thanos. Entretanto, encontra-se novamente ao engajar no arco do reino quântico, a nova “caverna” da jornada.

Por fim, o sucesso da sua narrativa é conquistado ao criar um objetivo comum a todos aqueles que assistimos e ao criar uma grandiosa equipa que luta em conjunto apesar das suas fraquezas. A realização dos irmãos Russo (as suas imagens e uso de CGI dispensam críticas), que consegue felizmente achar a sua assinatura no meio das correntes da fórmula Marvel e Disney, culmina na grande luta final e no encontro do “bem” e do “mal”, que não bate de frente à procura de violência gratuita, mas divide-se em núcleos eficientes e comprometidos com a transferência dessa ideia de fragilidade humana, mesmo ao transferí-la através de heróis.

O fim desta era Marvel tem um gosto amargo e satisfatório àqueles que procuram nos heróis um exemplo e representatividade, mas amargo não pelos seus erros, e sim pela sua verossimilhança que nos atira ao rosto as falhas próprias e carrega-nos com uma carga emocional dificilmente atingida por filmes deste género.

Pontuação Geral
Ilana Oliveira
Hugo Gomes
Jorge Pereira
avengers-endgame-vingadores-endgame-por-ilana-oliveiraA conclusão de um trabalho de mais de dez anos.