
Não é de todo correto vender este After como uma versão juvenil de As Cinquenta Sombras de Grey. A colagem aqui entre os dois títulos tem mais a ver com a estratégia de marketing do vendedor do produto, o distribuidor, que aproveitando-se das semelhanças no processo de “criação artística” – neste caso um conceito que nasceu num fórum dos One Direction, tornou-se um fenómeno literário em 2015 e chegou ao cinema este ano com bons resultados nas bilheteiras – procura uma colagem softcore de descoberta sexual para levar adolescentes de hormonas em ebulição aos cinemas. O resultado? Uma das mais banais e mais que vistas histórias de 2019, mesmo quando tenta dar um toque de Ligações Perigosas ao destino da história.
After vende-se como a história de um bad boy e de uma rapariga “cheia de sonhos” que se enamoram no liceu. Entre os dois nasce um apaixonante amor, uma entrada na vida sexual e um crescimento pessoal que fará a jovem a pensar na sua maneira de ser e de se relacionar com a vida. Pelo meio há traições, conflitos geracionais com os pais, e mil e uma balelas apenas suportáveis pelo tom simples, inócuo, insosso e derivativo da sua fórmula.
Extremamente conservador na narrativa (o rapaz rebelde; a menina pura desencaminhada; o sexo visto como um ato de amor para a eternidade, etc), After é uma historieta à la Nicholas Sparks – de um pseudo lirismo ultrapassado – como quase todas as gerações tiveram. É mais Twilight (menos vampiros e lobisomens) que 50 Shades of Grey (um dos mais patéticos objetos dos últimos anos), e um reflexo de um produto mercantil que tem como destino jovens com pouco conhecimento artístico (literário e cinematográfico) que se preparam e anseiam para saírem do casulo familiar – e que projetam no grande ecrã as suas curtas vidas privilegiadas de sufoco maternal ou paternal.

Nada por aqui é novo, único, efetivamente apaixonante ou meramente interessante, para além de toda uma pseudo ingenuidade em algumas personagens, cinismo noutras, e diálogos genericamente pobres e limitados que se amontoam como colagens de um diário teen. Na verdade, estamos perante algo tão estéril, inconsequente e pouco arrojado que é difícil de atacar verdadeiramente um produto assim para além da sua redundância, previsibilidade e falta de coragem.
É a mesma história – anorética em espessura – que já vimos mil vezes em todo o lado a ser vendida a uma nova geração, não porque exista realmente uma proximidade ou sentido de vizinhança aos problemas dos jovens ao longo dos tempos, mas sim porque se tenta vender que os grandes dramas da adolescência [“essa coisa inventada“] são o amor e o desolamento que vem quando este fracassa ou se revela acidentado.
Uma nota apenas para os atores, Josephine Langford e Hero Fiennes Tiffin, com prestações minimamente conseguidas (credíveis) no meio de tanto marasmo da escrita e uma realização anónima. Mas a verdade seja dita, os seus papéis não exigem absolutamente nada de intrigante ou especialmente complicado de executar e tudo o que vemos aqui é tão lavadinho que até a A Lagoa Azul parece pornografico.

Jorge Pereira

