
A cultura do medo sempre acompanhou a humanidade e encontramo-la não apenas na sua dimensão política, social e económica, mas na essência do próprio indivíduo, logo na sua mudança de comportamentos e hábitos, num regime de autocensura permanente. E mesmo depois da morte, a religião fez questão de implementar a “vida eterna”, seja ela no paraíso, inferno ou purgatório.
Esse medo que nos controla diariamente, seja de morrer, engordar, perder o emprego, não poder ter filhos, etc, foi abordada por inúmeros artistas ao longo dos tempos, mas a “cultura do medo” foi essencialmente popularizada e estudada afincadamente pelo sociólogo norte-americano Barry Glassner, que mostrou na sua obra como o alarmismo e o uso do medo como arma serve para obter dividendos para aquilo que chama de “indústria do medo”, conceito que envolve a economia capitalista, a sociedade, a política e todos os poderes instituídos (que instigam e propagam esse medo muitas vezes bem além da validação do perigo real existente). Um bom exemplo disso é o excessivo protagonismo do crime e violência na imprensa, a adulteração e descontextualização de números estatisticos, ou a adjetivação constante nas notícias aos seus protagonistas, criando termos chave que banalizam situações sempre mais complexas (“Os filhos do crack”; “O Monstro Assassino”). O objetivo, na realidade, é vender o pânico, pois o público bem sabe que “casa arrombada, trancas à porta“.
No espetro político encontramos o mesmo, muitas vezes fabricando-se e descontextualizando o que a imprensa informa para daí extrair benefícios próprios. Da extrema esquerda à extrema direita, todos nos vendem o medo a algo, a alguém e todos eles têm o antídoto, a cura e solução para esse problema.
Este prólogo serve de introdução para Tito e os Pássaros, filme de animação executado a seis mãos por Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar (ler entrevista), no qual seguimos um Mundo onde uma epidemia do medo alastra. No centro está o pequeno Tito, que descobre que a cura para essa maleita está relacionada às pesquisas do seu pai com pássaros, animais que sempre nos avisaram na eminência de catástrofes (como terremotos). Embarcando numa aventura para salvar o mundo dessa epidemia, Tito vai procurar igualmente o pai desaparecido e a sua própria identidade numa sociedade apavorada em risco de rutura.
Trabalhado em 2D e pintado de forma realista onde os pintores expressionistas (George Grosz e o Chaïm Soutine) – tão afetados pela cultura do medo dos nazis – foram a grande inspiração, Tito e os Pássaros é um primor visual, um objeto poético multicamada nos textos e estética, e uma fascinante jornada para adultos e crianças, com a mais valia de não ceder a facilitismos e regras do cinema de animação para massas, nem de procurar qualquer manipulação emocional redutora.
Costuma-se brincar que na vida só podemos contar com duas coisas: impostos e a morte. No final deste Tito e os Pássaros, ficamos ainda com mais medo da “cultura do medo”, mostrando que esse sentimento é também uma certeza na nossa existência.

Jorge Pereira

