«The Tower» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

É através da combinação de marionetas e desenho 2D que o cineasta norueguês Mats Grorud traz até nós o seu filme estreia, The Tower, projeto que ganhou raízes quando o cineasta trabalhou durante um ano no campo de refugiados de Bourj el-Barajneh, no sul do Líbano, ouvido muitas histórias de palestinos exilados, alguns dos quais nunca visitaram o território das suas origens.

É também num desses campos, cobertos de torres habitacionais caóticas no ordenamento, que a ação se desenrola, acompanhando o espectador em particular Wardi, uma menina palestiniana de onze anos que vive com toda a sua família num desses blocos de cimento. O seu bisavô, Sidi, que chegou a viver sob o Mandato Britânico nos tempos coloniais, foi uma das primeiras pessoas a vir para ali viver após ter sido expulso em 1948 da Galileia, juntamente com ⅔ da população palestina, aquando da fundação do estado de Israel a 15 de maio. Esse evento ficou conhecido como Al-Nakb (A catástrofe) e é mencionado por diversas vezes durante a fita.

Esta viagem ao mundo de Wardi e Sidi é igualmente uma viagem à história da Palestina e a momentos marcantes que afetaram o território e estes refugiados, que para além de terem de lidar com o exílio forçado, sofrem na pele o racismo por parte dos Libaneses e a pobreza extrema que os impede de conseguirem uma educação ou bons empregos. Todo este caminho é percorrido pelo cineasta de forma subtil, poético e agridoce, predominando a ausência de manipulações emocionais. Claro que existem momentos sombrios e trágicos, mas sem grandes aprofundamento do contexto histórico, embora sejamos levados atrás no tempo a vários momentos chave da vida destes homens e da sua pátria, como a Invasão do Líbano por parte de Israel em 1982 e o ataque de milícias aos refugiados (menciona-se Sabra e Chatila, o mais célebre genocídio de refugiados civis palestinos e libaneses perpetrado entre 16 e 18 de setembro de 1982, pela milícia maronita).

Há também – dentro da relativa simplicidade dos processos de animação – um grande cuidado na recriação destes campos, não apenas das torres que anarquicamente se dispõem no espaço e que crescem à medida que novas gerações vão aparecendo. Entram aqui em cena os pequenos (grandes) detalhes fornecidos pela direção artística de Rui Tenreiro, que vão desde as rachas e buracos de balas nas paredes, até aos graffitis pró-palestinos e aornamentos simples que preenchem as casas pobres destes homens que saíram do seu país temporariamente (Sidi), mas que ali permanecem até à sua 4ª geração (Warid).

Por estas razões, Tower é um filme tão triste como belo, onde mais que as questões políticas prima a humanidade.


Jorge Pereira 

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