Thriller distópico não inova, mas agarra o espectador até ao final

Os alertas climáticos, os extremismos, a ameaça autocrática e os muros que se levantam, afastam os povos e envergonham a civilização têm servido para nos últimos anos desaguarem distopias atrás de distopias que tentam evoluir no pequeno e grande ecrã os conceitos do totalitarismo, da vigilância e das ameaças ao indivíduo e à sociedade através de – essencialmente – uma cultura de medo.
Nestes trabalhos, o futuro da humanidade é negro, muito negro, mas com um passado coberto por tempos como o nazismo, o estalinismo e outras ditaduras que cobriram grande parte do planeta no século XX, e com um presente onde os constantes desastres ecológicos, as alterações climáticas, as crises financeiras e o avanço dos nacionalismos fazem parte da ordem do dia, como poderíamos pensar num belo futuro, ou mesmo em ter um?
Captive State é a mais recente incursão a essa negritude, um bem intencionado thriller de conspiração sobre uma invasão alienígena que tem a cidade de Chicago como centro. Estamos nove anos depois do primeiro contacto com extraterrestres e os governos do planeta entregaram o poder a criaturas espinhosas que parecem parentes das de Attack The Block. A estabilidade do planeta é conseguida através de uma rígida vigilância a eventuais insurgentes, continuando as estruturas do passado, como o governo e forças da lei, a serem geridas por humanos que respondem agora ao legislador alienígena.
É neste Universo tenebroso que os destinos de um agente da lei (John Goodman) e de um jovem rebelde (Ashton Sanders) se vão cruzar, num jeito e tom quase à John Le Carré ou Robert Ludlum (em particular a série de livros Bourne). A dinâmica incansável que o cineasta Ruppert Wyatt (de Planeta dos Macacos) incute na ação é o melhor que o filme tem para oferecer, aliado a personagens minimamente ambíguas numa corrida contra o tempo para executar ou evitar um evento que certamente coloca em risco a estabilidade pactuada com os extraterrestres.

Se avaliarmos influências, este pastiche narrativo de ideias familiares bebe das mais diversas fontes, como HG Wells (Guerra dos Mundos), George Orwell (O triunfo dos porcos,1984), Veronica Roth (Divergente), Neill Blomkamp (Distrito 9) e da maioria dos autores (da literatura, tv e cinema) que abordaram o tema das ocupações fascistas e dos atos da resistência.
Não estamos por isso numa obra refrescante, mas isso não implica que não estamos perante um trabalho competente que não cede a facilitismos, e que em certos pontos pensa fora da caixa da fórmula para massas à procura de bombar as veias de uma nova franquias. E se é verdade que há claramente um tom juvenil na jornada de Gabriel, John Goodman oferece um bom contraponto adulto que leva o filme para algo mais que uma distopia infantilizada para adolescente ver, gostar e esquecer.
E se não existe criatividade propriamente na inovação temática, há certamente inteligência na “mixagem” de tudo isto, especialmente – e voltando a frisar – na construção do suspense, com Wyatt a impulsionar um ritmo frenético e alucinante, bem acompanhado na cinematografia por Alex Disenhof (a carregar nos tons melancólicos e cores pálidas) e na banda sonora enfática – embora derivativa – de Rob Simonsen.

Jorge Pereira

