«The Dirt» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O lema Sexo, Drogas e Rock n’ Roll, normalmente utilizado para definir a vida louca e irresponsável das estrelas do mundo musical, ganha neste The Dirt, cinebiografia em torno dos Mötley Crüe, um novo olhar, mas se esperam algo verdadeiramente refrescante desenganem-se. A vida da banda foi divertida, espetacular e também problemática, mas as situações com que Nikki Sixx, Tommy Lee, Vince Neil e Mick Mars lidaram já tinham marcado o quotidiano de muitas outras estrelas, décadas antes deles levarem ao palco o seu primeiro espetáculo em 1981.

Longe de entrar em qualquer análise (minimamente) profunda ao processo criação artística de música (afinal, estamos a falar de uma banda), The Dirt essencialmente mostra os bastidores dos espetáculos e tournées, as festas alucinantes , o uso de drogas, o sexo desenfreado com groupies e a destruição de hotéis e outros espaços, tudo faitdivers arquivados em fotos, entrevistas ou vídeos da época que aqui são o foco central. E essa apresentação no ecrã é feita através da colagem de sketches atrás de sketches de pequenos momentos, sendo chamado para conduzir isto tudo o realizador Jeff Tremaine, que se pensarmos bem volta a pegar num bando de chicos-espertos e filma-os como sabe. Veja-se a cena em que Ozzy Osbourne surge em cena, uma sequência que podia fazer parte de qualquer registo dos filmes Jackass, que trouxeram visibilidade ao cineasta.

E se é verdade que existe uma tentativa de entramos na vida particular dos membros desta banda, às vezes com alguma profundidade (Nikki Sixx, Vince Neil), outras vezes com meras sucessões de anedotas patetas (Tommy Lee), ou então sem grandes especificidades (Mick Mars), também é certo que essa investida é tímida e reduzida às regras do cinema que vê o entretenimento como fim. Os Mötley Crüe, como tantos outros, viviam os dias como se fossem os últimos, servindo como marcas perfeitas de uma contracultura à era conservadora de Ronald Reagan.

O resultado final é um filme escapista e deveras superficial, um registo intermédio da transformação da cultura Sexo, Drogas e Rock n’ Roll no Thug Life dos dias correntes, do viver “à patrão” mais pelos (de) méritos da vida privada e disparates gossip em que os membros se vêem envolvidos do que pelas suas conquistas musicais.

Ainda assim, The Dirt é uma exposição curiosa para os fãs da banda que não leram o livro em que o filme se baseia, mas no universo musical onde já vimos quase todas estas situações mais ou menos refletidas e melhor aproveitadas cinematograficamente em filmes como The Doors, CBGD, Almost Famous e outros que tais, The Dirt soa a mera compilação de estórias no formato típico de ascensão e queda, tão icónicas na sua era como cliché nos dias que correm.

No seu melhor, o filme tem a capacidade de se autoparodiar, como quando “goza” pela ausência de certas personagens do universo da banda no filme, mas até essas incursões são trabalhadas como gags momentâneas sem qualquer continuidade estilística ou verdadeira autocritica.


Jorge Pereira 

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