
Sombrio no tema e extremamente pessoal, Funan é uma animação 2D tão colorida como manchada de cinzentismo, assinada por Denis Do, que acompanha a história de uma família separada pelo triunfo do Khmer Vermelho no Camboja, em 1975.
Baseado na vida da mãe do próprio realizador, nos seus sacrifícios, desgostos e métodos de sobrevivência, Funan começa de um jeito muito similar ao filme que Angelina Jolie assinou em 2017 para a Netflix: First they killed my father (Primeiro Mataram o Meu Pai).
Com a capital conquistada, mas alegadamente sob bombardeamento por parte das “forças imperialistas”, os seus habitantes são deslocados pelos seguidores do Partido Comunista da Kampuchea para inúmeras vilas onde seriam forçados a trabalhar a bem das forças revolucionárias. “O Angkar sabe o que é bom para vocês”; “O Angkar não tolera”; “É necessário afastar as marcas do imperialismo”. Estas são apenas algumas das frases proferidas roboticamente pelos soldados, revelando a morte do indivíduo a favor do pensamento autocrático de manada, construído a partir de frases soltas de um manual marxista muito adulterado.

Esses automatismos, essa desumanização, a formatação do indivíduo (como caminham, como trabalham, o corte de cabelo igual para todos) são apresentados num primeiro ato, que apesar de não acrescentar nada de novo ao que sabemos da revolução, do pensamento “revolucionário” e do sentimento de paranóia generalizada, serve essencialmente para situar historicamente o espectador mais desinformado.
Depois disso, dessa visita dura aos lugares comuns e onde predomina o didatismo cliché e redutor (vítimas/opressores; bons/maus), Funan entra num crescendo de espessura, de ambiguidades, e consequentemente adquire uma maior abragência e qualidade, não só por ganhar um novo dinamismo quando se orienta para casos individuais (tragédias dentro da tragédia), mas também do ponto de vista técnico e visual, com a palete de cores (verdes, azuis, laranjas) e os “planos” da animação a espicaçarem a mente do espectador pela sugestão.

É que se os sentimentos e ações são mais explícitos e gráficos no início, aos poucos, e com o passar do tempo, essas personagens martirizadas começam a recalcar as suas sensações, a criarem barreiras e defesas que impedem o inimigo de avaliar o seu interior, captando o espectador mais sobre eles no contraste que o realizador usa na escolha de planos gerais – que os colocam perante paisagens pacíficas, calmas, puras e virgens. É nesses planos, ainda mais que nos close-ups aos rostos marcados destas vítimas, que temos a noção do estado das suas almas torturadas, no seu caminhar contínuo para a (des)humanidade, e para a observação de como os homens destroem os homens, enquanto a natureza olha impávida para esse extermínio.
Embora diferente no espetro, qualidade e emoção de, por exemplo, O Túmulo dos Pirilampos (1988), há muito dele por aqui, o que transforma este Funan num objeto a ver e refletir, e num interessante complemento ao Cinema de Rithy Panh, o qual tem focado a sua cinematografia no antes, durante e depois do genocídio perpetrado pelo regime dos Khmer Vermelho.

Jorge Pereira

