«Triple 9» (Triplo 9) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Depois dos brilhantes Escolha Mortal e The Road – A Estrada, o australiano John Hillcoat visitou a cultura gangster americana em Dos Homens sem Lei, um drama da era da Grande Depressão que evocava o sentido de irmandade, a ganância e a morte, numa espécie de “Era uma Vez na… Virginia”.

Agora, Hillcoat repete um pouco a fórmula mas foca-se em Atalanta, na Geórgia, nos tempos de hoje, onde Casey Affleck é um polícia envolvido numa trama de preparação de um grande golpe que envolve polícias corruptos, gangues latinos e grupos mafiosos (a “Kosher Nostra“, como se brinca a certa altura).

Esteticamente, Hillcoat não inova nem deslumbra e tudo o que consegue é conquistar o espectador pela atmosfera de tensão e a sua violência habitual que irrompe o grande ecrã de forma esporádica, mas intensa. Mas até isso não é novo, nem na sua cinematografia, nem da de Antoine Fuqua (Dia de Treino), David Ayer (Fim de Turno), ou Andrew Dominik (Mata-os Suavemente), cineastas que nos vêm à cabeça depois de ver este Triplo 9, o qual pega o seu nome do código utilizado pelas forças da lei norte americanas para designar um agente que precisa de assistência imediata.

Recheado de personagens tipificadas, onde só falta o tom caricatural místico e humorístico que Guy Ritchie (Snatch) ou Jan Kounen (Dobermann) dão aos seus bandidos, não falta por aqui uma baronesa do crime russa no corpo de uma Kate Winslet a estender a vilã de Divergente com um ligeiro sotaque, um interesse familiar e um sadismo próprio das figuras modernas do topo do crime.

Noutro cliché, existe Woody Harrelson, mais uma vez um polícia com características muito peculiares, numa espécie de “facelift” dos seus tiques e modus operandi em True Detective ou Rampart, denotando-se aqui também algumas limitações de papéis a que parece circunscrito em Hollywood. E há claro Casey Affleck, a figura do bem e do polícia correto que quer fazer a diferença numa das piores zonas da cidade. No meio de tanta figura já vista, salvam-se parcialmente Anthony Mackie e Chiwetel Ejiofor, os únicos entregues a personagens minimamente delineadas para além da superficialidade maniqueísta.

Por tudo isto, Triplo 9 acaba por saber a desilusão, pois Hillcoat já nos habituou a dar muito mais que duas horas de entretenimento pastiche para entreter adultos sem paciência para ação no cinema distópico para jovens adultos ou de super-heróis.

O Melhor: Alguma tensão em momentos chave
O Pior: É o filme mais fraco de um cineasta que já ofereceu duas obras excecionais


Jorge Pereira

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