«Wild Card» (Wild Card – Jogo Duro) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Em 1986 chegou aos cinemas Heat (O Poder da Justiça), filme protagonizado por Burt Reynolds, ator que contribuiu com uns socos e pontapés para o descalabro que se revelou a produção e onde não faltaram realizadores. Inicialmente seria Robert Altman a assinar a obra, mas um dia depois de as filmagens começarem, este abandonou o projeto, sendo substituído por Dick Richards, o qual não se deu bem com o protagonista, envolvendo-se mesmo em algumas cenas de pugilato. Jerry Jameson foi o substituto, mas por pouco tempo, já que Richards regressou, abandonando novamente os sets depois de cair de uma grua durante as filmagens. Jameson então é chamado de novo para as filmagens, editando mesmo o filme*. Esta produção caótica em muito explica o desastre que a obra foi nos cinemas, onde rendeu cerca de 3 milhões, ou seja, apenas 1/3 a mais do valor pago a Reynolds (2 milhões na época).

Esta pequena introdução serve para explicar por que razão Simon West e a Lionsgate decidiram fazer um remake dessa obra, agora com o título de Wild Card – Jogo Duro e com um velho conhecido do cineasta, Jason Statham, no papel de um ex-mercenário que agora trabalha em pequenos biscates, mas que sonha abandonar a Las Vegas onde vive.

West e Statham têm um longo historial no cinema (The Mechanic – O Professional/ Os Mercenários 2) e podia-se dizer que estávamos perante uma dupla que podia dar uma nova dinâmica a um filme de vingança bem característico dos anos 70 e 80, mas também com um toque de redenção (que nos remete a um filme recente do ator**) e de reinício de uma vida longe dos vícios do passado.

Nada em Wild Card é impressionante, a não ser a atitude em se focar mais na inabilidade do nosso anti-herói em mudar de vida e cidade, embora sonhe frequentemente com isso. Na verdade, há sempre algo que prende o nosso protagonista à vida que leva, sejam estas personagens com quem se vai cruzando e partindo braços e pernas pelo caminho, seja o vício do jogo, ou velhos conhecidos que lhe pedem ajuda de forma egoísta.

Talvez um dos grandes problemas desta nova versão de Heat seja o de se agarrar em demasia ao material original (personagens e texto), o qual é muito limitado, derivativo, deixando pouco espaço de manobra. Para piorar, os fãs dos filmes de ação de Statham vão achar as sequências de pancadaria mais do mesmo, embora com mais slow motion e efeitos visuais para deslumbrar a vista, como uma espécie de “bullet time” aplicada por Statham a um cartão de crédito.

No final temos um filme pouco conseguido. Para além de não conseguirconvencer o espectador no seu lado dramático e de estudo de uma personagem, a fita não impressiona mesmo nada na sua vertente de ação. O que resta então?

O Melhor: Felizmente o último terço desta obra foge ao filme original e consegue elevar a fasquia. Os cameos (irrelevantes) de Sofia Vergara e Jason Alexander.
O Pior: Não convence como drama, nem como filme de ação.

* O filme vem assinado por dois cineastas. Numa decisão bizarra, a Guilda dos Realizadores norte-americanos decidiu que Richards foi responsável por 41% do filme e Jerry Jameson 31%.

** Redenção (2013)

 


Jorge Pereira

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