
É sobre sonhos e frustrações que Bennett Miller (“Capote” e “Moneyball“) filma em Foxcatcher, a reconstrução de uma estilhaçada história familiar e desportiva que ocorreu nos anos 80. Channing Tatum disse em várias entrevistas que não teve qualquer prazer na rodagem, que o ambiente entre actores e equipa era sempre muito pesado. Não o leiamos como uma crítica, mas como um testemunho do estado psicológico necessário para conseguir transferir para a película a tonalidade trágica deste drama americano.
A tensão entre os personagens começa entre os irmãos Mark Schultz (Channing Tatum) e David Schultz (Mark Ruffalo) atletas de luta livre e campeões olímpicos em 1984. Mark, mais novo, é solitário e introvertido, desmotivado no treino e sem crédito entre os pares, três anos após a medalha de ouro, com dificuldade em lidar com o sucesso social e desportivo do irmão mais velho, também seu treinador.
John du Pont (Steve Carell), herdeiro da família mais rica do país com uma fortuna construída por várias gerações dedicadas à indústria da pólvora, é o terceiro elo do triângulo que se irá formar. Sem qualquer interesse pelas corridas de cavalos, principal ocupação de uma mãe (Vanessa Redgrave) austera e desaprovadora, John foi prolongando a adolescência pela meia-idade com distrações como a filatelia, observação de aves, colecionador de comboios eléctricos e a paixão pela luta-livre. O rastilho lento para a explosão final da história começa no telefonema que John du Pont faz a Mark para o convidar a liderar uma equipa de luta livre com vista aos jogos de Seul em 1988.
A relação de John du Pont e Mark Schultz transforma-se em meses num caldo psicanalítico com raízes profundas em que as descompensações de ambos se apoiam. O sucesso e os músculos do atleta são adotados por John como o alter-ego que sempre quis ser; o dinheiro, a idade e a proteção fazem do milionário o pai que Mark nunca teve.
Foxcatcher consegue manter ao longo dos 134 minutos de duração a angústia preliminar de uma tragédia, a que não serão alheios a fotografia cuidada e ritmo de montagem, tornando-o num forte candidato aos Oscar e Globos de Ouro. Steve Carell faz o papel de uma vida, transfigurando-se numa personagem tão complexa como sinistra. Channing Tatum e Mark Ruffalo estão extremamente sólidos e compenetrados no na dupla de irmãos.
Indiscutivelmente, a ver.

Tiago Figueiredo

