
O russo Test até pode ser encarado como “filme mudo”, só que esta seria apenas uma forma redutora e um mero lugar-comum. Até porque não raras vezes a comunicação torna-se perfeita sem qualquer recurso diálogos. E não estamos sequer a falar no caso exuberante de The Tribe, pois aí a limitação física da fala é partilhada por todos os intervenientes. No novo filme do moscovita Aleksandr Kott, os olhares, os gestos, as paisagens acabam por se impor, deixando apenas espaço para essa imensa beleza natural e a milimétrica composição estética que inunda a tela.
Este é um filme de amor, no caso a atenção, devoção e o amor que Dina (Elena An) tem pelo pai, um homem que cumpre diariamente os mesmos rituais. Todos os dias ele vai trabalhar na sua camioneta deixando a filha sozinha na vasta estepe do Cazaquistão. À espera. Uma espera que Dina encara com devoção. De tal forma que não se deixa seduzir quando começa a ser cortejada por dois jovens. Só que mesmo dentro desse triângulo amoroso, o seu amor não consegue ser repartido.
Ao reduzir a ação a uma estreita linha narrativa, inspirando-se num evento ocorrido no Cazaquistão no final dos anos 40, Kott oferece-nos um filme de grande pureza, que nos prende às singeleza das ações das diversas personagens. As ousadas e rigorosas opções estéticas de Kott, devidamente traduzidas pelo enquadramento da câmara do diretor de fotografia Levan Kapanadze, recebem a devida tradução de uma carga emocional indizível que vimos talvez apenas nos trabalhos do americano Wes Anderson. Mas é claro que nada disso serve de elogio comparativo, pois percebe-se que o cinema de Kott é suficientemente personalizado para necessitar de qualquer caução.
O melhor: A forma como Kott domina a paisagem com o seu rigoroso enquadramento
O pior: O final gasta parte da aura do filme

Paulo Portugal

