Para que serve um remake de um clássico consensual? Para modernizar à força uma história que merece ser lembrada como intemporal? Ou para relembrar ao público do quão bom o filme original era?
Este Carrie de Kimberly Pierce (autora do muitíssimo recomendável Boys Don’t Cry) consegue cobrir ambas as respostas acima, num remake absolutamente desnecessário, mesmo que minimamente competente. Só que da competência ao deslumbre vai um longo caminho, e não ajuda nada quando fazemos todo um filme na sombra de um filme deslumbrante.
Quando Pierce não vai buscar inspiração à obra original de De Palma e ao livro de Stephen King, comporta-se ainda pior – note-se o estilo à comic book juvenil dos procedimentos, e, ironia das ironias, o tom facilmente mais datável com a necessidade (forçadíssima, quase para justificar a sua própria existência enquanto objeto cinematográfico) de incluir novas tecnologias com esta atualização.
Quanto a Julianne Moore e a Chloe Grace Moretz, não têm culpa de estarem a vestir personagens tão intrinsecamente ligadas a Piper Laurie e Sissy Spacek, respetivamente (convém relembrar que conseguiram o feito raríssimo de terem sido ambas nomeadas para um Oscar por um filme rotulado de “terror“), desempenhando o melhor possível face ao imposto. Quanto muito, é deveras curioso que uma maior subtileza na abordagem de Moore face a Laurie perde em quase todas as frentes (este é um papel que pede um “overacting” do mais simultaneamente “camp” e assustador possível, conjugação aparentemente impossível, mas que Laurie conseguiu), e a Moretz falhe um pouco a mistura explosiva do olhar assustadiço e do efeito “patinho feio” que Spacek tinha (veja-se o “antes” e “durante baile“).
Em suma, um abanar de ombros tolerável q.b., mas que não acrescenta nada ao mito, e quando quer acrescentar só entorna mais o caldo…
O melhor: A competência ainda assim em recontar uma história tão vista e parodiada.
O pior: A cada plano, diálogo a diálogo, lembrarmo-nos do filme superior de 1976.

André Gonçalves

