Os americanos não dominaram o Festival de Cannes, mas animaram muito. Aliás, dessa mão cheia de filmes não se viu mau cinema. Ainda que possam ter surgido algumas decepções (mas já lá vamos). Juntamos aqui dois filmes americanos de prévios vencedores da Palma de Ouro: Soderbergh, em 1989, com Sexo, Mentiras e Vídeo e os manos Coen a vencerem três anos depois com Barton Fink.
Regressam agora com produções relativamente mais modestas que os seus filmes precedentes, ainda que em propostas bem diversas no seu estilo e propósito, apesar de se tocarem aqui e ali. Poderemos até brincar com os títulos, embarcando na intimidade poética de uma música que não procurava a fama, enquanto que do outro lado da alcova, ou do candelabro, a dupla vida de um artista em cuja época não lhe era permitido sair do armário.
Ambos são grandes filmes, mas Inside Llewlyn Davis terá sido o grande ‘contender’ (a par do filme de Farhadi) para a Palma, ficando-se pelo prestigiado Prémio do Júri. Mais uma pequena jóia dos Coen, num eco saboroso que nos faz recordar precisamente… Barton Fink.
Ao explorarem o falso biopic do cantor folk Llewlyn Davis (curiosa a ressonância a Dylan), nos tempos de afirmação na Greenwich Village na Nova Iorque do início dos anos 60, justamente antes deste bardo surgir em cena, arrebatam-nos pela simplicidade, pureza e até algum humor ligeiro desta poesia acústica, bem como pela fotografia fantástica e a prestação avassaladora de Oskar Isaac – sem ele o filme não existira. Ele e um gato que usurpa parte da ação… Há ainda um duo de Carey Mulligan e Justin Timberlake.
Inside Llewyn Davis
Do outro lado, Soderbergh acena o que se espera não venha a ser o seu canto de cisne, mas apenas um interregno na sua carreira de realizador – seja como for, o bipoic lascivo do virtuoso pianista Liberace visto do outro lado do ‘armário’, numa produção para a HBO para evitar incómodos na classificação. De onde se prova, ainda que de forma algo paradoxal, que é na televisão onde o sexo é encarado da forma mais natural.
Michael Douglas é um magistral Liberace, um homem gay e fazer-se passar por hetero. Funde-se numa personagem que incendeia plateias com o seu virtuosismo, em 1977, ao mesmo tempo que pisca o olho à plateia feminina, para ganhar espaço no mais secreto e possessivo mundo, onde o magnata megalómano mantinha a relação obsessiva com o companheiro Scott Thorson.
Inside Llewlyn Davis ![]()
Behind the Candelabra ![]()

