Brian De Palma volta a nomear dois ingredientes comuns da sua filmografia -sexo e violência – numa oportunidade que encontrou neste remake do thriller erótico francês, Crimes d’Amour (2010) de Alan Corneau (falecido no mesmo ano em que o filme estreou). Tendo de momento a viver uma carreira abundante de baixos lucros e de crítica dividida, Paixão tinha tudo para acertar no alvo, não maioritariamente no primeiro ponto mas na conquista do público que havia perdido a crença no realizador dos notáveis Carrie e Scarface. Noomi Rapace e Rachel McAdams encabeçam um enredo de cumplicidades e rivalidades dentro do mundo empresarial. Relação tão agitada entre as duas que chega a sair dos “eixos” do publicamente aceitável, caindo na desordem do psicologicamente manipulável, vingativo e até crime.
Tal como qualquer refilmagem, Paixão fica a dever muito ao conceito da obra original de Alan Corneau, contudo Brian De Palma deposita o seu cunho na intriga, tornando visualmente plástica até ao forçado desfecho retardante. O autor não esconde o rumo dos seus twists, e por mais volta que dê, sente-se um certo desleixo em não conseguir iludir como manda a intriga. Assim sendo, a fita converte-se em algo desnecessariamente longo, fracassada nas direcções que as personagens seguem, onde os actores (interpretações amenas) demonstram fraca carnalidade para com a câmara. Trata-se de um claro exemplo de estilo sobre substância, com um realizador demasiado preocupado no tratamento estilístico do que na intensidade com que tenta transmitir este duelo de “façanhas”. Por fim, sente-se certa presença de um distinto cinema italiano de série B, o giallo, evidenciado no visual algo berrante, na sonoplastia dominante e na composição e apresentação do crime protagonista.
Depois de ter irado os mais conservadores norte-americanos com o ácido mas necessário Censurado (2007), Brian De Palma incute um filme digno dos seus anos mais criativos (Vestida Para Matar é um dos exemplos à vista) mas falha em não conseguir algo mais do que a pura teatralidade, quer visual, quer inerente.
O melhor – As influências do subgénero giallo
O pior – para além de ser algo plástico e forçado, é demasiado e futilmente longo

Hugo Gomes

