Se o Menino Nicolau pensava que a chegada do irmão implicava que os pais não precisavam dele e que o poderiam abandonar num bosque, no caso da pequena Cayetana, uma menina de oito anos que cresce no Peru no início dos anos 80, o caso é mais negro e dramático. Na verdade, ela pensa que a chegada do irmão levará à sua morte e frequentemente revisita na sua mente a história da independência do Peru, utilizando essa imaginação como uma catarse à sua difícil relação com as pessoas e com o mundo em geral.
Mas o mais fascinante deste retrato da infância não são só os pequenos (embora ricos) detalhes que compõem o universo da jovem, nem tão pouco a clara disfunção familiar onde se insere, mas sim o ambiente geral de um país repleto de disparidades de classes e que se encontra em clara tensão e crescendo de violência que começa a afetar profundamente a sociedade e as famílias.
É assim neste jogo entre o filme pessoal e a generalista recontagem do “terror” que se viveu nos anos 80 no Peru que Las Malas Intenciones se movimenta, mostrando não só ao mundo as boas capacidades da sua realizadora (Rosario Garcia-Montero) em saber enriquecer as personagens e o enredo, mas também dando a conhecer ao público uma atriz (Fátima Buntinx) com grande futuro, mesmo que em momentos se odeie a sua personagem.

Jorge Pereira

