Cada ser procura o seu próprio paraíso! Liebe (Amor) [ler crítica], Glaube (Fé) e Hoffnung (Esperança), são os três elementos que preenchem a trilogia Paradies (Paraíso) onde o austríaco cineasta Ulrich Seidl procura anatomizar uma sociedade ocidental preconceituosa e veras hipócrita. Mesmo sendo um conjunto de três filmes, Paradies pode ser visto separadamente e sem necessidades cronológicas, o único ponto de interacção entre as obras vem somente do parentesco entre as suas personagens principais. Em Glaube (Faith), somos introduzidos ao mundo de Anna Maria (Maria Hofstätter), irmã de Teresa da primeira parte (Liebe), uma fervorosa católica que dedica o seu tempo a tentar converter os imigrantes de Viena. Contudo a sua fé é colocada à prova com o regresso do seu marido, Nabil (Nabil Saleh), um paraplégico muçulmano, religião o qual Anna Maria despreza.
Ulrich Seidl revelou que obteve uma educação católica e que esteve prestes a tonar-se num padre, porém salienta que estando em contato diretamente dos temas referidos, o autor percebeu daquilo que não gostaria de ver, mas que chegou testemunhar no seio religioso. O cineasta explicita uma ácida, porém silenciosa critica à dependência religiosa, que por vezes origina uma falta de vontade individual, mas em Glaube, Seidl promete ir mais longe e compromete-se à disputa religiosa. A partir do momento que somos apresentados à personagem de Nabil Saleh, a ironia de um muçulmano incapacitado, Seidl invoca o menosprezo religioso em sociedades ocidentais, ficando aceso um confronto algo mordaz que vai desde insultos vindos de cada um dos lados, chegando até à violência física. Ulrich Seidl propõe ao espectador uma atenta metáfora à atualidade religiosa que se vive nos dias de hoje, ao conflito cometido pelas diferenças de crenças, até aos atentados aos direitos humanos invocando nome divino, tudo isto através de uma “simples” briga de casal, debaixo de um só teto.
Uma reflexão algo claustrofóbica que infelizmente resulta numa disputa desigual, controversa mas sem “espaço” para ir mais longe. Porém, Anna Maria de Maria Hofstätter é capaz de ser a personagem mais consistente do universo do autor, talvez uma generalização em forma de gente dos males do seu passado religioso. Por fim, Glaube levará o espectador a um final imprevisível, que nos remeterá à queda da fé e com isso o vazio intrínseco dos personagens. Talvez este seja o filme mais delicado e pessoal de Seidl, novamente corrosivo, explicito, de influências documentais e narrativamente silencioso.



















