Vender “Estrada de Palha” como filme de “ação e aventura”, como já se viu por aí, é injusto não só para o público, que não vai encontrar nenhuma das duas coisas no filme, como para o realizador/argumentista Rodrigo Areias, que corre o risco de ter seu filme confundido com os descerebrados exemplares típicos do género.
Ao se propor fazer um western, Rodrigo Areias enfrenta logo à partida um grande desafio: transpor para a realidade histórica portuguesa uma tradição cinematográfica e artística – que vai até ao nível da própria identidade cultural – de outra sociedade. O western é importante para os americanos não só no plano cinematográfico (deriva daí a própria invenção do chamado “plano americano”), como está ligado aos próprios fundamentos do seu reconhecimento histórico. A prova disso é que, diferente de outros géneros, só a Itália se aventurou (com resultados muitas vezes geniais, é verdade) nos “filmes de cáubois”. Para além disso, o seu apogeu ocorreu há mais de 50 anos.
No entanto, o realizador não leva a proposta totalmente a sério e, embora utilize alguns standards do estilo – incluindo mesmo um duelo – por outro o verdadeiro centro do filme são as perambulações do personagem principal. Interpretado por Vitor Correia, ele viaja – a pé, de comboio, a cavalo, de canoa e até de esqui. As paisagens têm neve, montanha, pastagens, plantações, rios. Este andarilho volta para a sua terra apenas para encontra-la assolada em igual medida pelas mais diversas violências – seja do Estado, dos senhores das aldeias, dos bandidos.
Areias parece à vontade e filma com segurança essas andanças solitárias, ocasionalmente interrompidas por oficiais corruptos, rebeldes políticos, taberneiros ou simplesmente bandidos. O filme também é aceitável em outros aspetos que são muitas vezes problemáticos no cinema português – os diálogos e as atuações – neste caso bastante boas, tanto de Vitor Correia quanto da novata Inês Mariana Moitas. Também é positiva a introdução de um elemento político explícito, ausente na maioria dos clássicos – o protagonista traduz “Desobediência Civil”, texto de 1849 do anarquista David Henry Thoreau.
Os problemas começam quando é hora de introduzir ação entre as sequências que deveriam ser apenas interlúdios dentro de uma narrativa dramática evolutiva. Aí faltam claramente elementos dramáticos. Fica-se com a sensação de que, já que está a correr tudo tão bem, poderia se ter um grande filme, o que não chega a acontecer. Por outro lado talvez tenha sido melhor: a única sequência de ação, o duelo entre o protagonista e o policial corrupto, é a pior cena do filme – dando-lhe um acento cómico não intencional e quase pondo tudo a perder.
A falta de uma história melhor reflete-se principalmente no fim – quando o filme perde totalmente o impacte na hora de solucionar as intrigas que havia proposto. Neste sentido, e por mais que se entenda a intenção política do realizador, o final é completamente frustrante em termos dramáticos.
De qualquer forma, é uma estreia promissora e espera-se que neste estado difícil que se encontra o cinema português a nível de financiamento, Areias consiga fazer mais filmes.















