«Lebanese Rocket Society» é mais que um documentário. É uma verdadeira cápsula do tempo e uma amostra surreal, fascinante mas globalmente dramática do retrocesso (ou antes paragem) científico na investigação nos países do médio oriente como resultado da guerra de 1967 contra Israel. Antes dessa data, e no início dos anos 60, Beirute, no Líbano, era uma das cidades mais importantes da região, não só pelo glamour mas pela investigação que as suas universidades executavam.

Em particular, este documentário centra-se nos estudos conduzidos na universidade de Haigazian por Manoug Manougian, um professor de matemática Arménio, que queria lançar rockets para o espaço, de forma a estudá-lo e explorá-lo. Vale a pena lembrar que estes eram os tempos da corrida espacial, onde EUA e URSS lutavam pela hegemonia em plena Guerra Fria. Descobrir que nesta época um país como o Líbano executou os seus próprios testes na área é algo extremamente gratificante de descobrir neste documentário, mas ao mesmo tempo penoso por vermos a forçosa paragem cientifica a que submeteram no pós guerra. E o mais curioso é que a própria população libanesa não se lembra muito bem destes tempos e destes estudos (nem o apelo feito numa rádio popular ajudou), o que condiciona em grande o trabalho de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, dois cineastas e artistas que partem em busca de resquícios desta experiência, tendo como ponto de partida a universidade.

Aí, e passando de pista em pista e de interveniente em interveniente, vamos conhecendo fotografias, pequenos vídeos e desenhos originais da época e do projeto, entendendo que apesar de a experiência ter começado no meio universitário, aos poucos – e também como consequência da tensão da época – os militares vão aos poucos conseguir algo com ele. Na verdade, depois da guerra de 67 e dos países árabes terem sido derrotados por Israel, o projeto evaporou-se, de certa maneira tal como o próprio Líbano, que passou de um país atraente para um foco de instabilidade e conflito quase permanente com o seu vizinho «inimigo». Agora, e não conseguindo conhecer mais meandros do projeto – pela tal falta de material e dados na memória coletiva, Hadjithomas e Joreige tentam recriar em forma de estátua, esse rocket, mas terão ainda de confrontar os novos tempos, onde uma obra de arte em forma de míssil pode ser confundido com algo bem real. 

Por todas estas razões, e apesar de por vezes os seus realizadores andaram perdidos na busca de memórias que não existem, «Lebanese Rocket Society» é um documentário muito gratificante, ainda que mais pela história que conta do que pela sua forma de a contar.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
lebanese-rocket-society-por-jorge-pereira«Lebanese Rocket Society» é um documentário muito gratificante